quinta-feira, abril 17, 2008

Gato pingado



CRIADOR DE FRITZ, THE CAT, O AMERICANO ROBERT CRUMB COMENTA A VIDA RECLUSA QUE LEVA NO INTERIOR DA FRANÇA E FALA DE DROGAS E DE SUA REINVENÇÃO DO GÊNESE
IKER SEISDEDOS


O anúncio de que já passou da hora do jantar encontra Robert Crumb, nome lendário dos quadrinhos underground, sentado, muito atento, murmurando uma melodia e balançando-se com as mãos nos joelhos. Já faz uns 30 segundos que o alto-falante monofônico cospe a sujeira acumulada durante 80 anos nos sulcos da belíssima canção "Lost Child", gravada pelos irmãos Stripling no Estado do Alabama, nos rurais anos 1920. Qualquer pessoa que saiba algo sobre Crumb já imaginará que a canção, que ele próprio escolheu com suas mãos recém-lavadas entre sua coleção de 5.000 discos raros de 78 rpms, terá que terminar antes que o mundo moderno possa continuar seu caminho. Se dependesse dele, o resto da vida poderia ser passada assim: ao lado do velho amplificador de válvulas. Absorto na música e soltando frases como: "A morte me preocupa menos do que me preocupava antigamente. Agora que a vejo de perto, não encontro razões para passar o dia me lamentando, me sentindo infeliz ou aflito". Algo assim só poderia estar acontecendo em Crumbland, uma casa de pedra situada à margem do rio, com sete pisos abarrotados de coisas belas e tendo como única concessão à tecnologia uma máquina Xerox arcaica. Colinas e vinhedosDe suas janelas, se tem uma vista de Sauve e dos vinhedos que cercam esse povoado medieval agarrado às colinas da região francesa do Languedoc Roussillon, como um dos personagens mirrados de Crumb se agarraria ao corpo de uma mulherona. Foi para cá que o universo Crumb completo se mudou em 1990, vindo da Califórnia. Os discos, as canetas hidrográficas Rapidograph e os míticos personagens: o gato Fritz, Mr. Natural, o enxerido Flakey Foont e as muito reais Aline Kominsky, sua mulher, e Sophie, filha e desenhista, como seu pai e sua mãe. Além de, é claro, o próprio Robert Crumb (nascido na Filadélfia, em 1943), que, graças a seus quadrinhos autobiográficos, se tornou um dos arquétipos mais conhecidos da HQ mundial. E um dos mais inacessíveis. Há o Crumb pervertido sexual, o Mr. Sixties, herói e flagelo da contracultura, e o neurótico de família disfuncional que Terry Zwigoff retratou num documentário perturbador. O inimigo das feministas, "o desenhista mais amado da América", a inspiração de sucessos do cinema independente, como "Anti-Herói Americano", e o velho amargurado que, perto do final de "R. Crumb -Handbook" (R. Crumb - Manual, MQ Publications, 440 págs., 15 libras, R$ 51, Reino Unido), escreve: "Minha própria condição consiste em odiar o que sou". Vida undergroundSão sua mulher, Aline, e o fiel amigo e co-autor do livro, Peter Poplaski, outro expatriado americano, artista por profissão, que recebem o convidado. Crumb detesta qualquer encontro marcado para falar de temas pessoais previamente pautados (ou seja, qualquer entrevista). E não é brincadeira: circulam em Sauve histórias sobre jornalistas vindos de Los Angeles que voltaram para o lugar de onde tinham vindo depois de três dias de tentativas infrutíferas de aproximação. Na sexta-feira passada, tive sorte. Perto do final da tarde, Crumb não achou má idéia jantar com o grupo depois de um dia passado trabalhando sobre sua mais recente e ambiciosa obra, uma HQ sobre o "Gênese", e de lhe ser informado, por Aline, que o jornalista parecia "um ser humano decente". Vendo-o aparecer, percebe-se que a imagem legendária de ermitão não é uma pose falsa. Crumb é um tímido rematado que se encurva, magro, se esconde atrás dos óculos e tem ar de quem conheceu mais pessoas do que teria desejado. Mais tarde, à mesa de um restaurante vietnamita da cidadezinha vizinha, ele explica: "Não vejo que interesse há em falar comigo. É muito melhor falar com Aline. Me perguntam: "Por que vocês se mudaram para a França?". E eu digo: "Não sei. Aline, por que o fizemos?'". Em sua condição de notária de tudo o que diz respeito a Crumb, Aline já me fizera um "relatório" à tarde no estúdio de seu marido, uma sala diabolicamente organizada, de paredes forradas de quadros, capas de discos de blues e bonecos alienígenas. Durante cerca de quatro horas, Aline e Peter Poplaski tinham repassado a vida de Crumb. Desde sua infância na Filadélfia, como filho do meio de cinco irmãos, filhos de um fuzileiro naval e de uma "maluca", até o surgimento em San Francisco, no final dos anos 1960, dos quadrinhos underground, gênero do qual Crumb se erigiria em expoente maior, "convertendo-se em alguém em quem, de repente, as mulheres prestavam atenção". "Predestinados"De como seus desenhos são tremendamente valorizados num mercado de arte que Crumb e sua mulher desprezam ("fechamos um pacto com o diabo para ganhar uma fortuna", admite Aline), até a razão pela qual Robert coleciona apenas discos lançados entre 1926 e 1932. Desde o candidato em quem ele pensa apoiar nas próximas eleições americanas (democrata, ainda não se decidiu por Hillary ou Obama) até o dia em que Aline conheceu Robert. "Alguém me disse "você precisa conhecê-lo -parece um de seus personagens'", recorda Aline. "Apesar de ele ter mulher e namorada, parecíamos predestinados. Ele pôs meu sobrenome, Kominsky, numa garota, em um de seus gibis, antes de nos conhecermos." O tempo não fez mais que acentuar a semelhança entre ela e os sonhos de Crumb: essas mulheres grandes, de músculos torneados e bíceps avantajados que Robert sempre procurou obsessivamente. Inclusive hoje, quando Aline se aproxima dos 60 anos e, na região em que vivem, é mais conhecida como professora de ginástica e pilates do que como artista. Marido e mulherNa época, ela também desenhava quadrinhos underground. E sentia o mesmo impulso biográfico que Crumb para escancarar suas intimidades, como em pouco tempo ficou claro com um volume ao qual deram o título de "Dirty Laundry" (Roupa Suja, 1976). Com ele, inaugurou-se um gênero em que cada um se representava, por seu lado, em vinhetas baseadas em fatos reais (vinhetas essas que ainda são publicadas regularmente na "New Yorker"). "Não há muito o que fazer com relação a nossa falta de vergonha", admite Aline. "É como dizer ao mundo: sou asqueroso, horrível, faço coisas censuráveis... Você ainda me quer?" Depois de mais de 30 anos de sinceridade absoluta, Robert e Aline Crumb, me diz em sua voz grave Aline, fabulosa contadora de histórias, "ainda nos fazemos rir um ao outro" e ainda se tratam de maneira tão afetuosa quanto brincalhona. "Me diga, Robert", pergunta Aline durante o jantar, "o LSD afetou seu traço nos anos 1960?". "Sim, é claro", ele responde. "Tomei umas 15 vezes, depois desisti. Primeiro deixei as anfetaminas, depois o ácido, os baseados, o álcool e, finalmente, a América." A voz de Crumb se movimenta em freqüências baixas, entre ironias e encolhimentos dos ombros. "A razão pela qual odeio dar entrevistas é que deixo tudo sair e fico vazio", ele tinha dito, antes de revelar as entrelinhas do contrato firmado para seu projeto mais recente, uma recriação literal do livro bíblico do "Gênese". "Me ofereceram US$ 200 mil [cerca de R$ 341 mil], que pareciam uma dinheirama. Três anos de trabalhos forçados depois, já não parece tanto dinheiro assim." Crumb já tem prontas cerca de 120 páginas em que recria passagens bíblicas com um grau de detalhes nunca antes visto em sua obra. Para isso, todos os dias ele deixa sua casa para ir a um estúdio nas proximidades, cuja localização até mesmo seus amigos desconhecem. Encerra-se ali e passa horas desenhando. Diz que precisa ficar recluso para concluir sua "obra mais ambiciosa". Num esconderijo que, depois de muito procurar, encontrou na propriedade de uma cidadã inglesa da região. ReviravoltasNuma reviravolta mais própria de Paul Auster [romancista norte-americano], descobriu-se que a proprietária da casa fizera seu doutorado em Oxford sobre o "Gênese" e se chamava Arabella Crumb (o casal a conheceu porque ela freqüentemente recebia a correspondência deles por engano). "Acho que o resultado não vai agradar a ninguém", diz o autor. "Os judeus vão odiar que dei um rosto a Deus; os cristãos, que as pessoas saiam transando e coisas desse tipo." O casal Crumb espera que dessa controvérsia plausível saia um sucesso editorial que lhes permita compensá-los pelo negócio que deveria ter sido e nunca foi a edição inglesa de "R. Crumb - Manual". Fruto de meses de conversas entre Poplaski e Crumb, o livro foi editado em 2005 por "alguns amigos" e lançado com grande mobilização da mídia. Poplaski e os Crumb fizeram uma turnê promocional sem precedentes à qual um jornal inglês dedicou dezenas de páginas. As críticas foram excelentes, e a estilista Stella McCartney organizou grandes festas de lançamento em Londres e Nova York, cidade em que, diante de uma biblioteca pública lotada de pessoas, Crumb teve um diálogo com o respeitado crítico de arte Robert Hughes (que freqüentemente compara seu xará a artistas da estatura de Bruege, o pintor flamengo do século 16). Depois de tudo isso (que Crumb concordou em fazer com a boa vontade com que um vegetariano devoraria um javali), os editores se declararam falidos. E desapareceram. "Não nos pagaram nem sequer o adiantamento", explica o co-autor Poplaski. "Acreditamos que venderam 120 mil exemplares, o que é um recorde para um livro de Robert." Será preciso esperar até outro dia para obter uma declaração irada do desenhista sobre esse assunto. Ele sempre parece ter outras coisas na cabeça. Ou será a mesma o tempo todo? Quando a noite chega ao fim, o mundo parece aliar-se para gerar um episódio inequivocamente crumbiano. No fundo de uns copinhos de saquê, aparece a imagem ousada de uma asiática nua. Diante da qual Robert exclama: "Opa! Desta aqui se vê o matagal todo!".
Este texto foi publicado no "El País". Tradução de Clara Allain
ONDE ENCOMENDAR - Livros em inglês podem ser encomendados pelo site http://www.waterstones.com/

terça-feira, abril 15, 2008

Manipulação de um massacre


Tema do novo filme de Andrzej Wajda, o assassinato de 20 mil poloneses por Stálin foi objeto de interesses político-ideológicos

BORIS FAUSTO
COLUNISTA DA FOLHA

Em abril de 1943, no curso da Segunda Guerra, quando ocupava a Polônia e parte da União Soviética, o Exército alemão encontrou na floresta de Katyn, em território russo, uma fossa de grandes proporções. Nela, haviam sido lançados os corpos de mais de 20 mil poloneses. Era mais um massacre entre os muitos perpetrados durante o conflito, mas este tinha características específicas: os autores da chacina não tinham sido os nazistas, e, sim, os comunistas russos. O ministro de Propaganda do Terceiro Reich, Joseph Goebbels, tratou de explorar a fundo a descoberta macabra, como exemplo do que se transformaria o mundo se os soviéticos ganhassem a guerra, martelando o tema no rádio, nos jornais e em cartazes distribuídos em países da Europa. As vítimas do massacre, praticado em abril de 1940, eram, em sua maioria, oficiais do Exército polonês -um grande contingente composto não só de oficiais de carreira como de engenheiros, advogados, professores universitários, jornalistas, convocados para combater a invasão do leste da Polônia pela União Soviética, em setembro de 1939, e capturados pelos russos, como prisioneiros de guerra. As mortes foram consumadas metodicamente, em regra com um tiro na nuca, disparado por pistolas de marca alemã, o que pode indicar o propósito de falsear a autoria dos assassinatos. Como se comprovou fartamente bem mais tarde, o massacre contou com a chancela de Stálin, por proposta de Laurent Beria, ministro do Interior e chefe da polícia secreta soviética, a NKVD. A operação teve por objetivo liqüidar uma parte expressiva da elite polonesa, na certeza de que aquele país, cujos conflitos com a Rússia ocorriam ao longo da história, ficaria alijada de seus setores sociais mais ativos, na eventual luta por uma Polônia independente. Naquele mesmo ano de 1943, quando a fossa foi encontrada, as forças soviéticas recuperaram a região onde se situa Katyn e desarmaram a arma propagandística de Goebbels -neste caso, verdadeira-, montando uma operação para denunciar os alemães como responsáveis por mais um massacre dentre tantos outros por eles praticados. Essa manipulação contou com o beneplácito da Inglaterra e dos EUA, ambos aliados da União Soviética na luta contra o nazifascismo. O primeiro-ministro britânico Winston Churchill assegurou aos soviéticos que iria se opor vigorosamente a qualquer investigação em território alemão por parte da Cruz Vermelha Internacional, pois ela resultaria em uma fraude e suas conclusões beirariam o terrorismo. Nos EUA, em 1944, o presidente Franklin Roosevelt solicitou a um comandante da Marinha, George Earle, seu emissário nos Balcãs, uma investigação sobre o caso. Quando Earle concluiu que os soviéticos eram, de fato, os responsáveis pelo massacre, Roosevelt suprimiu o relatório, embora dizendo-se convencido, entre quatro paredes, de que os culpados eram os alemães (a respeito de todo o episódio, o leitor poderá consultar o bem documentado texto "Katyn Massacre" em http://en.wikipedia.org/wiki/Katyn_massacre). No mundo ocidental, o reconhecimento de que o massacre de Katyn foi um crime do stalinismo se deu no contexto da Guerra Fria, a partir de revelações no Congresso dos EUA. Mas, no Leste Europeu, a verdade durou muito tempo para chegar aos olhos do grande público. Na Polônia comunista, Katyn foi um episódio borrado da história, na medida em que qualquer referência a ele correria o risco de abrir uma perigosa controvérsia. Na União Soviética, o reconhecimento da responsabilidade dos então dirigentes do país só ocorreu em 1990, no governo de Gorbatchev, mas, mesmo assim, com ressalvas. O massacre não foi reconhecido como genocídio ou crime de guerra e nunca se desvendou quem foram seus responsáveis diretos. Hoje, há uma extensa bibliografia sobre o episódio e o veterano cineasta polonês Andrzej Wajda a ele dedicou um filme, com o título singelo e expressivo de "Katyn" (2007). O tema o toca diretamente, pois seu pai foi um dos oficiais poloneses vítimas do massacre. O filme foi lançado na Polônia em uma cerimônia que contou com a presença de intelectuais e de muitas autoridades, tendo grande repercussão popular. O massacre de Katyn é um duro e excelente exemplo de como visões maniqueístas dificultam a compreensão histórica. Convém, porém, não confundir visões maniqueístas com um aparente objetivismo, em que o historiador se situaria como observador neutro, diante dos acontecimentos históricos. A Segunda Guerra pôs frente a frente duas forças, num combate literalmente mortal não apenas pelo número de mortos, na maioria civis, como pelo fato de que a vitória do nazifascismo representaria a morte da civilização. Mas, ao mesmo tempo, episódios como os de Katyn revelam que os países democráticos não estavam isentos de perpetrar atos condenáveis. Pecados maiores, como o bombardeio de Dresden, a bomba de Hiroshima e pecados comparativamente menores, como seu comportamento no caso de Katyn, tratando de encobrir o crime soviético, em nome da realpolitik.

domingo, abril 13, 2008

Globo vai produzir conteúdo para celular





A Globo começará até o final do ano a produzir conteúdo para telefones celulares. A rede avalia que haverá uma "explosão" nas vendas de telefones receptores de TV digital, a serem lançados nos próximos meses.

A expectativa é baseada em pesquisa, feita em São Paulo, que mostrou que 80% do público estaria disposto a comprar celulares receptores de TV.
Para Octavio Florisbal, diretor-geral da Globo, a emissora precisa o quanto antes produzir conteúdo específico para celulares e miniTVs digitais.
Florisbal aposta em um conteúdo de curta duração, porque o telespectador de celular e miniTV não terá muito tempo para se dedicar ao aparelho, pois estará em trânsito.
Inicialmente, a Globo planeja produzir programetes dirigidos a esse público, mas exibidos nos intervalos da programação convencional _portanto, acessíveis por todos os telespectadores. Seriam boletins noticiosos e "pílulas" de programação, entre a "Sessão da Tarde" e a novela das seis, para quem está voltando para casa.
A programação para celulares será inicialmente nos intervalos da convencional porque a legislação não permite que uma rede transmita um sinal para telefones e outro, diferente, para televisores fixos, embora isso seja possível tecnicamente.
"No futuro, se a legislação permitir, podemos fazer para os celulares programação totalmente diferente", diz Florisbal.

Reencontro com Nelson

Antunes Filho volta ao dramaturgo com "Senhora dos Afogados", peça que considera uma "tragédia da esterilidade"

Fernando Donasci/Folha Imagem
Ensaio de 'Senhora dos Afogados' com direção de Antunes Filho


VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz.
Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, "Senhora dos Afogados", lançada em 1947.
"Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor.
O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão", diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações.
Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para "navegar" no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, "mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam", como diz uma das personagens.

Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de "Senhora dos Afogados". "É a tragédia da esterilidade", afirma.
Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência.
Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. "As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou", diz Antunes.
Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em "Yerma", que dirigiu em 1962, no TBC. "Ao contrários das personagens gregas, em "Senhora dos Afogados" não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira."
Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas "figuras espectrais".

"Viração"
"Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da "viração", que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo", ilustra o diretor.
"Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural", diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça.
O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. "Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo", afirma.
"Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos", diz.
Como artista, ele se diz "sufocado, desesperado com a sociedade de consumo". E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso "O Olho do Espectador", dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. "O diretor massacra a platéia.
Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado."


SENHORA DOS AFOGADOS
Quando:
estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000)
Quanto: R$ 5 a R$ 20

terça-feira, abril 01, 2008

Renovação da tecnologia tenta recuperar a magia única do cinema


      31/03/2008 |
Marcelo Perrone
Zero Hora


Hollywood acredita que uma grande inovação tecnológica fará da sala de cinema outra vez um lugar de emoções fortes e únicas. O que se busca é aquela mesma sensação de espanto que os irmãos Lumière arrancaram da platéia em 1895, quando espectadores se jogavam ao chão apavorados para se proteger de um trem que brotava da tela no nascimento do cinema.

A novidade é o cinema tridimensional, que literalmente coloca o espectador dentro do filme. Novidade, o 3D? Não. Mas o que se vê agora é bem diferente do que se conheceu 50 anos atrás, com óculos de papelão, imagens com fantasmas e dor de cabeça. Os estúdios que vêm apostando no novo sistema desde 2005 tiveram resultados animadores em 2007, projetam grandes sucessos para 2008 e a decolagem definitiva em 2009. Mesmo nos EUA, a transição é lenta - apenas 12% das 38,7 mil salas estão digitalizadas, exigência para instalar o 3D, já presente em 900 delas. No Brasil, somente cinco das 2,1 mil salas são equipadas com projeção 3D.

Filmes baixados ilegalmente da internet e equipamentos domésticos que reproduzem na sala de casa imagem e som espetaculares são alguns dos novos inimigos de Hollywood. Entre os altos e baixos do mercado, os grandes estúdios mantêm o lucro em dia, mas sentiram necessidade de uma reviravolta urgente no negócio. Como já fez em outras ocasiões diante do alerta vermelho (veja quadro abaixo), a milionária indústria acredita ter no 3D uma valiosa carta na manga.

- É nada mais nada menos que a maior inovação que ocorreu em nosso negócio desde a chegada da cor, há 70 anos - disse Jeffrey Katzenberg, da DreamWorks, um dos mais poderosos executivos de Hollywood.

Katzenberg garantiu isso há poucas semanas, em Las Vegas, durante o ShoWest, a maior convenção da indústria cinematográfica. O evento teve como pauta a transição para o sistema digital. Mas embasbacados com a exibição em primeira mão da aventura em 3D Viagem ao Centro da Terra, produtores, distribuidores e exibidores apostam que 2009 será o ano da virada (leia ao lado).

O Brasil já tem duas salas digitais em São Paulo, duas no Rio e uma em Florianópolis. O grupo Cinemark opera quatro dessa salas, e o presidente da rede no Brasil, Marcelo Bertini, analisa com cautela a expansão local do 3D - cada sala, só em equipamento, tem um custo de R$ 420 mil.

- O primeiro passo é avançar na migração da projeção em filme para a digital, mas o espectador leigo não vai notar diferença - explica Bertini. O 3D é esse elemento diferencial. Mas o alto custo ainda deixa negócio inviável, mesmo com o ingresso mais caro (de R$ 13 a R$ 18).

Mesmo sob ponto de vista conservador, Bertini prevê uma expansão para os próximos cinco anos. Umas das novas salas digitais do Cinemark, especula o mercado exibidor, pode ser instalada no BarraShoppingSul , em construção na Zona Sul de Porto Alegre. Ele não confirma, nem desmente.

Principais marcos tecnológicos do cinema

1895 - Os irmãos franceses Auguste e Louis Lumière inventam o cinematógrafo e realizam a primeira sessão de cinema, em 28 de dezembro de 1895, em um café de Paris. O sucesso não é imediato, mas logo começam a se formar filas que somam até 2 mil pessoas por dia. O programa de 20 minutos apresentava 10 filmetes. Chegada de um Trem à Estação, com apenas 50 de segundos de duração, inaugura a era das grande emoções no cinema: imaginando ser real o trem que crescia na tela, o público protege-se atrás das cadeiras.

1927 - O cinema fala: a Warner lança com pompa a técnica que vinha sendo testada desde o ano anterior. O Cantor de Jazz deixou a platéia de queixo caído com músicas cantadas e diálogos. A revolução foi tamanha que exigiu dos atores novos métodos de interpretação e boa voz, aposentando alguns galãs.

1929 - George Eastman cria a técnica do filme em cores. Quem logo adere é Walt Disney em seus desenhos de curta-metragem. O primeiro longa em Technicolor aparece em 1935: Vaidade e Beleza. O sistema atinge seu apogeu em grandes produções como O Magico e Oz e ...E o Vento Levou, em 1939.

Anos 50 - O cinema começa a perder público com a popularização da TV. Hollywood reage, oferecendo aquilo que os espectadores não poderiam ter em casa. Em 1952, é exibido o primeiro longa em terceira dimensão, A Sombra e a Escuridão. O desconforto do óculos de cartolina (foto) e a imagem instável fazem com que a empolgação dure pouco. Apesar de filmes mais empenhados, como Disque M para Matar (1954), de Alfred Hitchcock, o 3D logo é relegado às produções baratas de terror e aventura. Em 1953, a Fox apresenta O Manto Sagrado em CinemaScope, aquele que vai se tornar o mais popular dos sistemas de projeção com tela "esticada".

Anos 70 - Tubarão, de Steven Spielberg, abre a era dos blockbusters em 1975. Um ano depois, o som Dolby faz as salas de cinema tremerem. Em 1977, Guerra nas Estrelas, de George Lucas, se torna outro fenômeno que consolida o modelo dos fenômenos de bilheteria globalizados.

Anos 80 - A ameaça vem do videocassete. Hollywood tenta barrar a novidade sob a alegação de que ela fere direitos autorais. Em 1985, é inaugurada nos EUA a primeira grande rede de locadoras, a Blockbuster. A indústria demora a explorar o filão, mas recupera nas fitas VHS parte do público que sumia das salas. O prejuízo é maior para os pequenos exibidores. Salas menores fecham e começam a pipocar os grandes complexos cinematográficos, sobretudo em shoppings.

Anos 90 - Cineastas de perfil mais autoral apostam no vídeo digital para diminuir custos e preservar a independência artística. Até então, apesar das muitas inovações técnicas, o modelo de captação e projeção era praticamente o mesmo havia cem anos. O computador começa a substituir a moviola mecânica na montagem dos filmes. Em 1995, o desenho animado Toy Story mostra o potencial da computação gráfica. Em 1997, chega o DVD, que se torna uma grande fonte de renda para os estúdios.

Anos 2000 - A popularização da internet em banda larga dissemina na indústria do cinema o susto que a indústria musical já amargava diante da pirataria. O comércio legal de filmes pela rede ainda é incipiente. A sofisticação e o menor custo de home theaters mantêm o público em casa. Para atrair mais gente, uma nova revolução é ensaiada: a volta do 3D, dessa vez maior e melhor.

segunda-feira, março 17, 2008

"Watchmen" nas telas promete ser decalque do gibi


Diretor Zack Snyder segue história quadrinho a quadrinho, como já havia feito na adaptação da "graphic novel" “300’”.
Longa estréia em um ano; autor Alan Moore não viu e não gostou, mas desenhista Dave Gibbons visitou o set e aprovou com louvor.

IVAN FINOTTI
EDITOR DO FOLHATEEN

Após 18 anos de tentativas, após a compra por quatro estúdios (Fox, Universal, Paramount e agora Warner Bros.), após o envolvimento de cinco diretores e após ser reescrita por três roteiristas, a maior HQ de todos os tempos finalmente tem data para chegar às telas dos EUA: 6 de março de 2009.
As filmagens terminaram no mês passado e, enquanto esses 358 dias se arrastam, o diretor Zack Snyder (o mesmo de "300") vai acalmando os fãs.
Em suas entrevistas ou por meio das imagens já liberadas, pode-se ver que "Watchmen", o filme, será um decalque do gibi.
Na semana passada, Snyder soltou novo lote de fotos com os personagens. Trazem pequenas mudanças, como as armaduras de Ozymandias e Coruja Noturna ou a bota longa de Espectral. O Comediante e Rorschach estão idênticos.
Falta ainda exibir o Doutor Manhattan, interpretado por Billy Crudup (o guitarrista de "Quase Famosos"). Para viver o personagem azul e superpoderoso, o ator usou máscara e luvas com pontos de luz, para guiar o trabalho posterior de efeitos especiais.

Terrorismo, não
Não é só no visual que Zack Snyder segue passo a passo a série de Alan Moore, publicada em 1986 e 1987. A história de "heróis" demasiadamente humanos se passa em 1985 e foca na Guerra Fria, na iminente ameaça nuclear, traz ecos do Vietnã (guerra vencida pelos EUA com a ajuda do Doutor Manhattan) e exibe um Richard Nixon ainda presidente.
Os diversos roteiristas do projeto tentaram atualizar tudo isso aos novos tempos. Snyder foi radicalmente contra: nada de terrorismo, aquecimento global ou Iraque. "Abandonamos essa abordagem e voltamos a 1985", disse.
Esse respeito ao texto original não foi suficiente para que Alan Moore desse um voto de confiança ao diretor. Moore já destruiu todos os filmes baseados em suas HQs, como "V de Vingança" e "A Liga Extraordinária".
Enquanto o desenhista Dave Gibbons visitou o set em dezembro do ano passado -e está "sorrindo até agora"-, Moore mandou um documento assinado para os produtores de "Watchmen".
Ele escreveu: "Eu, abaixo-assinado, por meio desta dou permissão para excluir meu nome dos créditos do filme e dar todo o dinheiro a que tenho direito para Dave Gibbons". Isso é que o legítimo humor inglês...

quinta-feira, março 13, 2008

Fernando Meirelles pena na finalização de "Blindness - Ensaio Sobre a Cegueira"



09/03/2008 - 18h03

Da Redação

O diretor Fernando Meirelles, em fase de finalização do seu próximo filme "Blindness - Ensaio Sobre a Cegueira" (adaptação da obra de José Saramago), vive, literalmente, um período de provação. O cineasta conta em seu blog as dificuldades e tensões da etapa de montagem até a pré-mixagem neste mês.


Alice Braga e Denny Glover em cena
FILMAGENS DE "BLINDNESS' EM SP
MEIRELLES FALA SOBRE O FILME
Desde o final das gravações em outubro, o filme passou por diversos cortes em busca de aceitação popular. De exibições fechadas para amigos, produtores e distribuidores até os discutidos 'test screenings' (sessões para grupos testes com intuito de medir a reação audiência, como fazem alguns programas de TV como as telenovelas), a produção foi revista e alterada pela menos seis vezes.

Alguns dos problemas de recepção detectados por Meirelles no público presente nas exibições foram a dificuldade de se relacionar com os personagens sem nome e história (seguindo o modelo literário de Saramago) e a intolerância à intensa violência do filme.

"Havia 540 pessoas na sala e gente para o lado de fora. Até o meio do filme senti que a platéia estava comigo, então veio a primeira cena de estupro, quando umas 16 mulheres foram levantando e saindo. 'Será que passamos do ponto?', me perguntei. Veio então a segunda cena de estupro e mais 42 (!) mulheres deixaram o cinema. 'Sim, passamos do ponto!', respondi para mim mesmo", descreve o autor em seu artigo.

Meirelles conta que, em novembro, quando estava fechando o quarto corte do longa, acreditava que estar próximo da versão final. Mas, passados quatro meses e chegada a décima edição, o diretor divide com seus leitores as inseguranças sobre a sua derradeira apresentação.

"Blindness - Ensaio sobre a Cegueira" retrata uma epidemia de cegueira que se alastra rapidamente no mundo. Integram o elenco da co-produção Brasil/Canadá nomes como Mark Ruffalo, Julianne Moore, Gael Garcia Bernal, Danny Glover, Jorge Molina, Sandra Oh e a brasileira Alice Braga. O filme teve locações em Toronto, Montevidéu e São Paulo e sua estréia está prevista para o segundo semestre de 2008.

segunda-feira, março 10, 2008


A revolução será televisionada

Usando as mesmas armas da internet, redes de TV podem dar a volta por cima e atrair mais público que o mundo virtual


A web "é chata e está morta"; é exatamente aí que estão o problema e a oportunidade que a TV tradicional precisa encarar

MICHAEL HIRSCHORN

Uma das coisas mais cansativas nos devotos das novas mídias é a sua convicção, em nada diferente daquela ostentada por pessoas que aderem a cultos religiosos: para eles, ou uma pessoa "entende" o que é importante ou não entende. Ainda que seja um costume cansativo, isso não quer dizer que não estejam certos, pelo menos em certa medida.
Um exemplo clássico seria a maneira como Steve Jobs [principal executivo da Apple] transformou a indústria fonográfica em refém e praticamente a destruiu. As grandes gravadoras, ao concederem à Apple o direito de vender faixas individuais por US$ 0,99, solaparam o modelo de negócios que as sustentava -vender grupos de canções unidas em um produto chamado "álbum", por até US$ 20 a unidade.
O que elas não perceberam foi o fato de que as pessoas estavam prontas para começar a consumir música de maneira inteiramente nova. As gravadoras viam o iTunes como uma maneira de ganhar dinheiro sem despesas -como uma fonte "subsidiária" de receita, no sentido legal do termo.
Jobs tomou essas canções baratas e as vendeu abaixo do preço, como forma de estimular a compra dos dispendiosos iPods fabricados por sua empresa, e o setor de música em sua forma tradicional agora está despedaçado.
Como trabalho no setor de TV convencional, não tinha percebido até agora que exatamente a mesma coisa está acontecendo no mercado de vídeo. Eu certamente acompanhei a ascensão de serviços de vídeo online como o YouTube.
O iTunes também começou a operar no mercado de vídeo, oferecendo uma combinação entre vídeos profissionais e podcasts em vídeo de amadores e quase amadores.
Como as gravadoras antes deles, as redes de TV e estúdios de cinema licenciaram parte de seu conteúdo para a Apple, permitindo que o iTunes vendesse programas e filmes com a mesma estratégia de preço único que ela havia adotado para a música (US$ 1,99 no caso dos programas de TV e US$ 9,99 para filmes).
O iPod Video, que concorre com os celulares capazes de exibir vídeos e outros aparelhos capazes de exibir essa forma de conteúdo, permitiu que o conteúdo visual chegasse ao mercado móvel, o que deu início a um período de vídeo acessível a qualquer hora, em todo lugar e de imediato.
Tudo isso parecia apenas ruído de fundo, resmungo digital, porque uma coisa era óbvia: as pessoas amam a televisão. Jamais deixarão de assistir à TV.
O YouTube pode ser popular mas não conta, porque não é TV de verdade. Seus vídeos são curtos, e muitos deles são esquisitos. A TV profissional apresenta mais brilho, narrativas mais agradáveis. E esses valores seriam eternos.
Mas uma recente visita a Houston me convenceu de que eu não estava entendendo a situação. Meu amigo Mike e sua mulher haviam dispensado completamente o televisor e, em lugar disso, utilizavam um iMac com tela de 20 polegadas como uma espécie de home theater improvisado, sem perdas dolorosas de qualidade.
O conteúdo vinha do iTunes, de outros serviços de mídia na web e de DVDs. Ao fazê-lo, dispensaram as polpudas contas da TV a cabo e afirmaram uma forma iconoclasta de controle sobre a mídia em suas vidas.
A experiência tradicional de assistir à TV não precisa necessariamente morrer, mas, para salvá-la, o complexo mídia-indústria terá que agir de modos não-tradicionais e desconfortáveis e terá, igualmente, que repensar "o que é TV".
No momento, isso significa assistir a um programa de vídeo produzido profissionalmente. O telespectador é um participante passivo e usa um televisor ligado a um decodificador que recebe conteúdo de um serviço de cabo ou transmissão digital.
No futuro, a TV será uma cacofonia de conteúdos profissional e amador, em forma longa ou curta, distribuídos por uma variedade de plataformas e recebido por uma variedade de aparelhos.
O conteúdo recebido será editado, comentado, parodiado e retransmitido pelo antigo "telespectador" -agora chamado "usuário"- para quem quer que ele deseje. Determinar quem pagará a quem para fornecer que serviço a quem mais representa a grande questão para esse novo modelo, em torno do qual todas as revoluções da mídia parecem girar.
E não há nada que indique que as pessoas que vêm sendo pagas agora continuarão a sê-lo dentro de alguns anos. O modelo surgido depois da Segunda Guerra, de conteúdo em vídeo dispendioso movimentando um setor de produção de conteúdo imensamente lucrativo (todos aqueles filmes com orçamentos de US$ 200 milhões) está sob certa ameaça.
A grande greve dos roteiristas encerrada recentemente nos EUA e uma possível greve dos atores na metade deste ano representam a grande batalha final pelo controle dos lucros do conteúdo em um momento que talvez seja o último em que disputar esse controle valha a pena -mais ou menos como as greves dos operários siderúrgicos nos anos 1980.
A história quanto ao vídeo difere da história que aconteceu no setor de música de maneira crucial. Ser um fã de música tradicionalmente envolvia ir à loja de discos, dedicando quantias consideráveis a um artefato do qual você conhecia apenas uma ou duas canções, e o processo todo, em geral, resultava em decepção com o produto recebido.
O modelo que o iTunes criou no setor de música e o modelo do download ilegal representaram um salto quântico em termos de satisfação dos consumidores, diante dos modelos anteriormente existentes: tornou-se possível pagar apenas pelas canções realmente desejadas (ou obtê-las sem pagar coisa nenhuma!).
Além disso, o método oferecia um sistema de armazenagem conveniente, que permitia dispensar todas aquelas caixas quebradas de CDs.
Já o modelo tradicional da TV é muito mais amistoso para com os usuários. Os programas são gratuitos ou, ao menos, seu custo fica soterrado em meio às faturas da TV a cabo.
Assistir a vídeos na web, ao contrário do que a tendência pareceria indicar, é uma experiência mais analógica do que assisti-los em um televisor. Na TV é possível selecionar entre centenas de ofertas instantaneamente ou escolher entre dezenas de programas que você tenha preservado em seu gravador digital de vídeo.
Na maioria dos sites de vídeo, no entanto, clicar de programa a programa envolve abrir e fechar software de mídia e assistir a intermináveis anúncios que surgem na tela antes do programa.
A qualidade continua abaixo da média, com definição baixa, programas de reprodução de mídia que oferecem telas reduzidas e problemas de sincronização de áudio e vídeo. A seleção disponível não é das mais amplas, e não existe um guia central que informe o que está disponível, onde e quando.
É fácil dizer que esses problemas terminarão resolvidos, mas restará sempre a suspeita de que a experiência propiciada é desagradável intencionalmente, para que as pessoas não abandonem os seus televisores rápido demais.
Como diz Mark Cuban, empresário de internet, proprietário do time de basquete Dallas Mavericks, a curva de inovação na web está estagnada, e a largura de banda disponível também está chegando ao limite.
Em outras palavras, há um limite para o volume de dados que pode ser distribuído pelos nódulos da internet, e essa limitação estrutural torna improvável que a web venha a propiciar uma experiência lisa de vídeo, pelo menos no futuro previsível.
É por isso que Cuban afirmou no ano passado, contrariando as opiniões dominantes, que a web "é chata e está morta". E é exatamente aí que estão o problema e a oportunidade que a TV tradicional precisa encarar.
O avesso da teimosia do setor de música é a mentalidade de rebanho -"precisamos acompanhar o que a garotada faz". Essa mentalidade dispõe que, a menos que a empresa aposte todas as fichas na internet, ela não está "sacando a coisa".
Mas "sacar a coisa" não significa necessariamente ceder ao coro dos digitais, especialmente se isso significa destruir seu negócio no processo. Nos dois últimos anos, as redes de TV colocaram programas na web de maneira desordenada. A lógica é que, caso não o façam, alguém mais o fará.
Mas, como o setor de música logo aprendeu (a exemplo do setor jornalístico anteriormente), esse modelo rapidamente faz de um negócio uma organização de caridade, o que solapa o valor de seu produto, ainda que exponha o conteúdo a uma audiência maior.
Isso ocorre porque anunciantes e redes abertas ainda não definiram um protocolo para a venda de publicidade que acompanhe a quase infinidade de conteúdo disponível, e os consumidores ainda não estão preparados para gastar muito dinheiro pagando por downloads.
Existe uma solução, e ela está bem debaixo dos narizes das redes de TV: transformar a televisão em algo mais parecido com a internet. Em diversos posts na web, Cuban vem promovendo imensas inovações que devem surgir com a TV de alta definição, entre as quais funções plenas de internet nos televisores e decodificadores de próxima geração.
A televisão com recursos de web provavelmente significaria uma profunda perda de controle para os programadores de TV, porque as prerrogativas tradicionalmente reservadas a quem controla datas e horários se tornariam irrelevantes. O mesmo se aplicaria ao conceito de "rede" de TV, já que a maioria dos programas se tornaria igualmente acessíveis, não importa quem os exiba.
Na medida em que avançamos na direção de uma cultura em que as escolhas cabem mais e mais ao consumidor, a TV certamente precisa acompanhar isso, não importa o quanto pareça modismo.
Mas não há motivo para que a própria TV não concorra como versão futura da web, segundo a visão de Cuban, oferecendo escolhas ilimitadas (imensos estoques de filmes, temporadas inteiras de seriados), capacidades de edição e distribuição por usuário (ou seja, a possibilidade de enviar a um amigo um trecho do episódio de alguma série que você acabou de assistir), reprise, armazenagem, WiFi...
E, como todos os dados percorrerão a mesma "tubulação", mas sem a influência desestabilizadora da internet, a TV poderá oferecer resolução excelente, mesmo em um televisor de 60 polegadas.
E eis a última das inversões: à medida que TV e internet convergem como parte de algo genericamente conhecido como banda larga, as distinções entre as duas logo se tornarão irrelevantes, do ponto de vista dos consumidores. Mas será que o híbrido resultante se parecerá mais com a TV, acrescida de interatividade, ou com a internet, acrescida de TV?
A distinção valerá bilhões para quem chegar primeiro e organizar a bagunça de maneira satisfatória para o consumidor.


MICHAEL HIRSCHORN foi vice-presidente executivo da VH1, um dos canais da MTV. É colunista da revista "Atlantic Monthly", onde a íntegra deste texto foi publicada. Tradução de Paulo Migliacci . Fotógrafo/artista: Kyu Oh.



Um gênio sem idade


Lendo "Vestido de Noiva", entendemos que poderia ter sido feita na Inglaterra do século 16

UNS TEMPOS atrás, assistindo a uma montagem prodigiosa de "Macbeth", em Londres, confesso que fixei um momento da peça que merece partilha. Leitores, aproximem-se: trata-se do delírio do general Macbeth (Patrick Stewart, na peça), que acredita ver o fantasma do rei por ele assassinado a irromper pelo banquete.
Tudo na cena é memorável: o cenário, uma mistura de cozinha com matadouro, sob forte iluminação asséptica, de uma frieza hospitalar. A mesa do banquete ao centro, com os comensais em traje militar e soviético (um "modernismo" tolerável). E, ao fundo, um elevador metálico, que permitia aos atores as entradas e saídas de cena.
Subitamente, o cenário começa a tingir-se de uma luz vermelha, como se houvesse sangue a escorrer pelas paredes. O elevador é ativado e começa a descer em direção ao palco. Então, a porta se abre (rangendo pesadamente), e de dentro do elevador sai o rei Duncan, figura sepulcral, que caminha literalmente sobre a mesa do festim, em direção a Macbeth. E, este, perante a indiferença dos comensais (que riem e conversam), aponta para o rei e grita de horror ante a visão da sua própria consciência.
Se fixei a cena, não foi apenas pelas qualidades plásticas (e bem aterrorizadoras) da encenação, que provocou algumas desistências ao intervalo (palavra). Foi sobretudo pela inteligência do jovem encenador Rupert Goold. Na peça, a assombração do rei fechava a primeira parte. Mas notável era a forma como se iniciava a segunda: o mesmo cenário, os mesmos comensais, repetindo os mesmos gestos e palavras com que terminava a primeira parte. Como se alguém tivesse recuado o "filme" alguns minutos. E, subitamente, Macbeth volta a apontar (desta vez, para o vazio) e grita novamente de horror.
No fim da primeira parte, o público assistia, por dentro, à alucinação de Macbeth. No início da segunda parte, assistia, por fora, à realidade de Macbeth. Ou, se preferirem, o público tinha duas perspetivas: a do próprio Macbeth e a dos seus convidados perante a loucura aparentemente inexplicável do general. No meu caderno de notas, apontei de imediato duas palavras: Nelson Rodrigues.
E se agora relembro a seqüência, foi por força das circunstâncias. Em coleção que só pode cobrir um português de inveja, a Folha resolveu publicar alguns clássicos da literatura brasileira. Machado de Assis, Lima Barreto, Rubem Fonseca. E o incontornável Nelson Rodrigues, com "Vestido de Noiva", a peça que praticamente reinventou o teatro brasileiro.
Li e reli a peça nos últimos dias, para escrever uma breve apresentação dela. Sempre com desconforto e fascínio crescentes. E o que impressiona em Nelson Rodrigues não é apenas a qualidade da linguagem (inultrapassável nas crônicas) nem as obsessões permanentes do autor, dilacerado por um desejo de pureza e pela certeza de que esta é inalcançável por material humano tão corrupto. O que impressiona é a absoluta modernidade de Nelson.
Em "Vestido de Noiva", Nelson Rodrigues não se limita a escrever sobre uma mulher, Alaíde, tragicamente atropelada na cidade. Nelson vai mais longe e escreve sobre a consciência dessa mulher: a forma como, habitando um limbo entre a vida e a morte, a mente de Alaíde se desdobra em três planos distintos -realidade, alucinação e memória- capazes de nos revelar a verdade mais profunda sobre ela.
Tal como em "Macbeth", é na consciência de uma personagem que encontramos os seus desejos, os seus caprichos. Os seus terrores. No caso de Alaíde, a atração inconfessável pela prostituta Clessi, um símbolo de libertação e de transgressão. A vontade igualmente inconfessável de matar Pedro, o marido. A forma velhaca como usou e abusou de Lúcia, sua irmã, seduzindo o homem que ela amava. E o temor de Alaíde de que Lúcia e Pedro conjuram para assassiná-la.
No plano da realidade, Alaíde está entre a vida e a morte. Mas será Alaíde vítima ou algoz daqueles que a rodeiam? Como em Shakespeare, não interessa apenas a Nelson Rodrigues aquilo que mostramos. Interessa o que mostramos, o que fomos e o que somos. Três estados para uma mesma condição.
"Vestido de Noiva" foi escrito e encenado em 1943. Lendo a peça, hoje, entendemos de imediato que ela poderia ter sido escrita e encenada na Inglaterra isabelina do século 16. Ou no Rio de Janeiro dos nossos dias. Ou num dos palcos do West End londrino. É a marca do gênio. Porque só os gênios não têm idade.

JOÃO PEREIRA COUTINHO - Folha de São Paulo

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Novidades 2008 - A retomada do Blog


novo cinema novo
Na faixa dos 20 anos, uma geração estréia no cinema embalada por prêmios e exemplos de sucesso



Na esteira do sucesso de José Padilha, Fernando Meirelles e Walter Salles, uma nova geração de cineastas colhe prêmios antes de sair da faculdade

Maria do Carmo/Folha Imagem

Alunos do quarto ano de cinema da Faap durante preparação do
curta-metragem de conclusão do curso na Vila Mariana


luz, câmera e diploma por Roberto de Oliveira e Mariane Morisawa

Cena 1. Num casarão na Vila Mariana, sábado é dia de filme para uma família de 12 descendentes de italianos. Prólogo da sessão, uma festança.

Cena 2. Silêncio. O VHS começa a rodar "Ladrões de Bicicletas", de Vittorio de Sica.

Cena 3. Sem desgrudar os olhinhos da tela, um garoto de cinco anos matuta. Que fascínio é aquele que emudece crianças e adultos?

Corta. Dezenove anos mais tarde, o menininho é o rapaz Gregório Graziosi. Continua espectador de filmes, só que agora põe a mão na massa. "Descobri criança que minha paixão era o cinema italiano. Não conseguiria fazer outra coisa", diz. Aos 24 anos, já fez três curtas. O primeiro deles, "Saba", participou de Cannes no ano passado, após correr festivais mundo afora. O filme, de 16 minutos, olha em close a vida de um casal idoso, recluso, que aguarda a morte. Detalhe: os personagens são o bisavô do cineasta, Porphirio, 98, e a bisavó, Francisca, morta no ano passado, aos 103 anos.

Estudante do último ano de cinema na Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), Gregório trabalha desde o semestre passado numa produtora, a CinemaLink Filmes. A empresa, recém-inaugurada, tem como plataforma o cinema digital. Ele integra uma nova geração que começa a se profissionalizar em um mercado em expansão, embalado pelo reconhecimento internacional de produções recentes.

Com o fim da Embrafilme na era Collor, em que o cinema nacional deixou de existir, para hoje, a diferença é brutal. São cerca de cem filmes produzidos por ano, o que implicou na profissionalização da atividade. A chance de repercussão de um filme não está mais nas mãos do diretor exclusivamente. Produtoras como a O2, a Gullane Filmes, a Dezenove, a Conspiração e a Videofilmes tornaram-se grifes que chancelam a qualidade dos projetos.

O sucesso de longas como "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, e de "Tropa de Elite", de José Padilha, premiado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim, no sábado 16, impulsiona a procura por carreiras relacionadas ao cinema. Na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da Universidade de São Paulo, o curso superior de audiovisual foi o quarto com maior relação candidato-vaga em 2007: 40,09. Fica atrás apenas de jornalismo, publicidade e propaganda e relações internacionais e à frente de medicina. Foram 1.287 inscritos para 35 vagas.

Marco Dutra, 27, fez ainda na ECA o curta "O Lençol Branco", exibido na mostra Cinefondation, em Cannes. Ele entrou na faculdade em 1999, um ano depois do lançamento de "Central do Brasil", de Walter Salles, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro. "Já havia exemplos de filmes que diziam que cinema era uma coisa que dava para fazer no Brasil", conta . Ele aponta outras razões para a explosão de vocação para a sétima arte no país. "Hoje é uma carreira muito sedutora. As pessoas acham que é possível entrar neste mundo, ser feliz e famoso."

Sua colega de faculdade e parceira em "O Lençol Branco" e em "Um Ramo", premiado na Semana da Crítica em Cannes, Juliana Rojas, 26, encarou o desafio de um mercado ainda incipiente: "Não avaliei os riscos. Havia uma certa euforia na época da faculdade". Com um diploma na mão e várias idéias na cabeça, Juliana finaliza o curta "Vestida" e prepara, também com Marco Dutra, o longa "Trabalhar Cansa", a ser rodado no final de 2008. "Achei que ia demorar mais para fazer o filme, mas tive sorte de realizar dois curtas que ganharam reconhecimento."

Exemplos como os de Juliana e Marco embalam os sonhos de quem presta vestibular para cinema. Novos cursos foram criados, como o da Universidade Anhembi Morumbi, que forma sua primeira turma em dezembro deste ano. São cerca de 250 alunos, com a entrada de cem novos estudantes a cada ano. E pipocam cursos técnicos, de pequena duração, voltados para áreas como direção de arte e produção.

Foi esta a opção de Ciro Saboya Gomes, 23, aluno do curso técnico de operador de câmera do Senac. Filho do deputado Ciro Gomes e da senadora Patrícia Saboya, ambos pelo PSB-CE, ele mudou-se do Ceará para São Paulo para tentar se profissionalizar, depois de fazer estágio nas filmagens do longa "Zuzu Angel". "Foi o cinema que me achou. Estudava publicidade havia um ano e meio, em Fortaleza, mas estava descontente", relata Ciro, que trancou a matrícula ao aceitar o convite inesperado do diretor Sérgio Rezende. "Fui com meu pai assistir à filmagem num fim de semana. Fiquei como estava. Comprei três camisetas brancas e três pretas e pronto."

Saiu do set com uma certeza: "Quero ser produtor e diretor de documentário". Já fez o primeiro, "Antártida", e trabalhou com Patrícia Pillar, atual mulher de seu pai, no filme sobre o cantor Waldick Soriano. "O sucesso do cinema brasileiro motiva", avalia . "Não sei se dá para sobreviver de cinema, mas isso é preocupação em qualquer profissão."

Nem todos os recém-formados enveredam-se pela direção. Pierre de Kerchove, 28, concluiu o curso pela ECA no ano passado, mas optou pela fotografia. "Se você não tiver uma pessoa conhecida na área para te apadrinhar, é bem complicado ser diretor", conta ele, que, como fotógrafo, leva no currículo o prêmio geração 14plus, do Festival de Berlim, conquistado pelo curta "Café com Leite", de Daniel Ribeiro.

Tapa na telona
Para essa turma estreante, a máxima do cinema novo, uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, se completa com os dedos no computador. Não dá para falar dessa garotada sem associá-la à internet. A web é usada para baixar filmes, divulgá-los, contatar outros cineastas, acessar blogs, pesquisar e participar de fóruns. "Hoje em dia, todo mundo pode montar um filme no computador de casa", afirma Paulo Sacramento, montador de "Amarelo Manga".

Exemplo de como a rede de computadores pode ser poderosa aliada é o sucesso do cineasta Esmir Filho, 25. Dois anos atrás, ele ganhou popularidade após colocar no YouTube o vídeo ''Tapa na Pantera''. A obra cult foi responsável pela redescoberta da veterana Maria Alice Vergueiro. No vídeo, a atriz, de 72 anos, aparece explicando por que fuma maconha.

O cineasta dirigiu uma série de vídeos para a internet, além de premiados curtas. "Sempre gostei de contar história", diz Esmir. "Aos 15 anos, quando vi pela primeira vez o filme 'Noites de Cabíria', de Fellini, me dei conta de que as imagens falam mais que a escrita. Decidi que cinema era o meu caminho."

Formado em 2004, Esmir anda empolgado. Começa a rodar seu primeiro longa em junho: "Os Famosos e os Duendes da Morte". Foi o único filme da América Latina selecionado entre 25 projetos pelo Berlinale Co-Production Market (Festival de Berlim 2008), que procura parceiros e investidores europeus e acompanha todo o processo de produção.

O filme retrata a vida de um garoto de 16 anos, fã de Bob Dylan, que assiste ao mundo pelo computador, em meio ao tédio de uma cidade do interior. O primeiro longa do cineasta será produzido pela Dezenove Som e Imagens, nome por trás de sucessos como "Bicho de Sete Cabeças", de Laís Bodansky, "Durval Discos", de Anna Muylaert, e "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes. A propósito: todos eles, filmes de estréias desses diretores.

Sara Silveira, 57, produtora, desde 1983 no mercado cinematográfico, enxerga uma explosão de novos talentos. Segundo ela, o número de cineastas atrás de realizar o primeiro filme aumentou 70% nos últimos cinco anos. O perfil também mudou bastante. No início dos anos 00, a faixa etária dos diretores, que estreavam em longa, variava de 35 a

40 anos, diz Sara. Hoje, quem está por trás das câmeras tem 24, 25 anos. "Os jovens exibem mais disciplina que os cineastas consagrados", compara.

Para a produtora, a premiação de "Tropa de Elite" acena para um cenário favorável ao cinema brasileiro lá fora. "A comunidade internacional está interessada no Brasil. 'Tropa' vai ajudar a dar impulso na produção nacional." O bom momento da economia, os incentivos fiscais por meio de leis, como a Rouanet e a do Audiovisual, e o aumento de lançamentos corroboram o surgimento de novos talentos.

É essa a aposta de Caroline Okoshi Fioratti, 22, que desde os 12 queria ser cineasta e termina o curso de cinema neste semestre. Vai filmar "Formigas", obra de conclusão dos estudos, sobre imigração japonesa. É assistente de Carlos Cortez na Gullane Filmes há um ano e meio. "Descobri que ele estava filmando 'Querô' e fui entrevistá-lo. Ele acabou me chamando para ser sua assistente", conta ela, que já atua no próximo filme do diretor. "Foi importante cursar a faculdade e trabalhar ao mesmo tempo", avalia. "É difícil viver de cinema. Tem que amar muito."

Cartão de visita
O caminho das pedras rumo ao longa-metragem segue um modelo semelhante ao que ocorre na Fórmula 1. Nela, os pilotos dão as primeiras aceleradas no kart. No cinema brasileiro, esse veículo é o curta. Como ocorre muitas vezes nas pistas de corrida, a trajetória no cinema é quase sempre bancada pelos pais. Filho do cartunista Paulo Caruso, Paulinho, 24, concluiu o curso de cinema no ano passado.

Ele faz o balanço: "De 2002 a 2005, paguei para trabalhar. Em 2006, fiquei no empate. Só em 2007 os investimentos começaram a dar retorno". No ano passado, Paulinho voltou de Gramado (RS) com três Kikitos: melhor filme curta-metragem, melhor roteiro e melhor montagem por "Alphaville 2007 d.C.". O curta, selecionado para o festival deste ano de Tampere, na Finlândia, teve orçamento de R$ 15 mil, 80% bancado pela Faap, onde Paulinho estudava.

Eliseu Lopes Filho, 49, vice-coordenador do curso de cinema da faculdade, diz que a Faap disponibiliza equipamentos, filmes e infra-estrutura para os alunos realizarem seus curtas curriculares e de conclusão. "Caso contrário, eles não teriam condições de viabilizar os filmes." Criado em 1972, passaram pelo curso de cinema da instituição cerca de 3.000 estudantes, entre eles Beto Brant e Laís Bodansky.

Os curtas são o cartão de visita do futuro cineasta. Foi graças ao sucesso de seu filme que Paulinho foi convidado a trabalhar na produtora O2 Digital, um departamento da O2 Filmes, gigante na produção de cinema, comerciais e séries de TV, fundada por Fernando Meirelles e Paulo Morelli. Dinheiro, acredita Paulinho, ele pretende ganhar com filme publicitário. "O Fernando ensinou nossa geração que publicidade nos dá hora de set com o que existe de mais so?sticado. Você aprende a lidar com equipamentos, mão-de-obra e a queimar negativos", conta.

Viver de cinema é projeto de longo prazo, em um mercado que engatinha. O diretor de arte Cássio Amarante dá bem a idéia do que espera os futuros colegas: "As condições de trabalho não são boas. Não tem plano de saúde nem aposentadoria".

Mas o encanto do cinema embala sonhos de veteranos e de estreantes. "Existem todos esses problemas, mas é delicioso", contrapõe Cássio.

As principais profissões ligada ao cinema

Maria do Carmo/Folha Imagem

Ciro Saboya Gomes, 23, fez estágio em "Zuzu Angel"
e aposta num curso técnico de operador de câmera


Diretor: é o maestro do filme, quem rege todos os departamentos e tem a visão global da concepção do longa-metragem. Em geral, quase todo mundo que faz faculdade de cinema vira diretor ou quer se tornar diretor. Sempre há os que não se formaram em cinema. Fernando Meirelles, por exemplo, é arquiteto. Vários diretores trabalham também com publicidade. Normalmente, o primeiro trabalho de um diretor é um curta-metragem. No Brasil, começa a aparecer a figura do diretor contratado por uma produtora para dirigir um projeto e não um filme próprio.

Roteirista: É o autor de cinema, responsável por colocar no papel a trama estruturada e com diálogos. A maior parte não se formou em cinema, até porque os cursos não tinham especialização na área. "É raríssimo que alguém saia roteirista da faculdade. Em geral, a formação se dá no campo, em cursos livres", diz Di Moretti, presidente da associação Autores de Cinema, que não se manifesta sobre pagamentos. "Cada roteirista deve cobrar o que acha que merece." Como o edital de roteiro do Ministério da Cultura premia com R$ 50 mil, consideram este o piso do cachê. Sobreviver só de roteiro é difícil. "Tem uns cinco ou seis no Brasil", diz o roteirista Cláudio Yosida, de "Os 12 Trabalhos" e "De Passagem".

Diretor de fotografia: É o responsável por viabilizar tecnicamente e artisticamente, em imagens, as idéias do diretor. Muitos se formam na prática, mas boa parte sai da faculdade de cinema. Em raros casos, um fotógrafo de still consegue virar fotógrafo de cinema. Segundo Hélcio Nagamine, diretor de fotografia de "Querô", o percurso é longo. "É muito por aprender. Fotografia tem uma parte artística, mas também uma técnica complicada. Você precisa saber um pouco de geografia, astronomia, física e química", explica ele, que atua também como fotógrafo na imprensa. "Demora para você fazer um longa. No mínimo, são dez anos para se estabelecer como diretor de fotografia." Em geral, começa-se como segundo ou terceiro assistente de câmera.

Montador: Além de fazer os cortes nos momentos certos e com continuidade de movimentos, é responsável por dar ritmo e por encontrar no material bruto filmado as melhores tomadas e a melhor maneira de contar a história depois de rodada. A maior parte dos montadores se forma na faculdade de cinema. Paulo Sacramento é diretor e montador, mas sobrevive graças aos trabalhos de montagem. Ele diz que há espaço para os novos. "Faltam montadores qualificados", afirma. Para os bons, não falta trabalho, mas a formação não pode ser só técnica. "É preciso ver muito filme. E rever. O montador precisa entender da vida, entender os personagens."

Diretor de arte: Coordena equipes grandes, responsáveis pela cenografia, figurino, maquiagem, ou seja, toda a parte visual. Em geral, a equipe de arte vem de outros cursos que não o de cinema, pois normalmente não há formação específica. São designers, artistas plásticos, desenhistas industriais e arquitetos, como o diretor de arte Cássio Amarante, de "Abril Despedaçado" e "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias". "Não existe diretor de arte recém-formado. São profissionais que precisam ter experiência de vida, carga cultural." Segundo ele, falta mão-de-obra qualificada na área.



O Rambo da periferia

Ao contrário do guerreiro americano, Capitão Nascimento é uma anomalia, um herói fracassado que não tem acesso aos valores morais da sociedade

Divulgação

O ator Silvester Stallone em cena de "Rambo 4"; à direita, Wagner Moura como Capitão Nascimento em "Tropa de Elite"

INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA

Em "Rambo 4", John Rambo está na Tailândia. É um homem amargo e solitário, que não acredita nos outros homens.
Do outro lado da fronteira, em Mianmar, milicianos esmagam uma revolta muito mais pelo prazer de fazer mal aos outros do que por um (inexistente) espírito profissional. É nessa selva que um grupo de médicos e pregadores pretende se aventurar, com a arrogância da ciência e da fé. Rambo desaconselha a aventura, mas acaba levando-os no seu barco.
Entregues à própria sorte, os missionários caem nas mãos dos sádicos governamentais. Um grupo de mercenários é contratado para efetuar o resgate. O barco de Rambo novamente é convocado. Apesar de toda a arrogância (a do saber militar, desta vez) do líder dos mercenários, na primeira chance ele quer pular fora.
É bem aí que o instinto do guerreiro vai se manifestar e John Rambo proclamará que "ou vive-se por nada ou morre-se por uma causa".
Não há nenhuma causa, essa é a verdade, exceto a atração que exerce sobre ele a pregadora Sarah, que pode não ser uma Catherine Zeta-Jones, mas para aquela selva está mais que satisfatória.
O quadro está completo: 1) uma causa política -restituir a Mianmar os direitos humanos; 2) um objetivo humanístico -levar a fé cristã a esse povo bárbaro; 3) um objetivo militar -demonstrar a superioridade ocidental (e americana) a esses sub-homens; 4) um objetivo metafísico -reencontrar o espírito guerreiro.

Salvar o mundo
Talvez o ideário de Rambo não tenha mudado muito desde o segundo exemplar: trata-se, sempre, de salvar o mundo, mesmo à custa do desprezo de seus concidadãos (aqui os missionários torcem o nariz até quando ele lhes salva a vida).
Podemos dizer, ao primeiro olhar, que é o velho imperialismo americano em ação. No espírito do Partido Republicano, que não por acaso Sylvester Stallone apóia. Talvez seja isso mesmo. Mas, se Rambo permanece um herói americano, a despeito das intervenções no mínimo controversas dos últimos anos, é menos por pregar uma espécie de antiisolacionismo do que por encarnar uma virtude muito americana.
Sem estabelecer um juízo sobre a, digamos, qualidade de seu heroísmo, ele é herói porque representa uma nação em que, se você tem algo a fazer, deve fazer direito e até o fim.
No Brasil temos um herói recente, na pessoa do Capitão Nascimento de "Tropa de Elite". Ele sobe o morro nas piores circunstâncias, desafia os traficantes, combate os corruptos e acomodados da polícia e não se dobra a certos preceitos civilizados (como o de não torturar suas vítimas) que costumamos associar a fraqueza no combate ao crime.

Acordo tácito
Breve, Nascimento é o nosso Rambo. Ou quase.
Porque, a despeito da solidão a que é condenado, do desprezo que muitos lhe dedicam, existe um acordo tácito, garantido pelo pragmatismo americano, que insere Rambo numa ordem: a da eficiência, do fazer bem-sucedido.
Já Nascimento é uma anomalia (assim também os recrutas que trabalham com ele).
A classe média que o elege como herói tem seus motivos: só um cara assim, à frente de uma tropa competente e impoluta, para limpar o Rio de Janeiro, triunfar nessa até aqui inglória guerra do tráfico e liquidar o espírito mafioso que se estabeleceu.
Nascimento criou-se, em nosso imaginário, como uma mistura de Rambo e Elliot Ness (mais algo como um sociólogo capaz de nos libertar das invencionices de Foucault e outros que envenenam nossos universitários -porque, se nada funciona, a culpa deve ser da cultura, esse veneno).
O que os fãs do capitão Nascimento talvez não tenham notado no filme é que seu herói é mais fracassado do que o Homem-Aranha. Para ser quem é, ele não pode preservar o casamento, ele não tem direito nem sequer à paternidade.
Numa sociedade moral (em que seus princípios se mantenham minimamente coesos), o sujeito que rouba ou que mata é uma anomalia. O policial corrupto é um criminoso. Etc.
O combate ao crime, ao erro, faz parte natural da existência e da cultura (ver os inúmeros filmes policiais).
No Brasil, sabemos que as coisas não funcionam assim, e é nessa medida que os heróis de "Tropa de Elite" aparecem como seres dignos de admiração e imitação. São exemplares, o que não significa que sejamos capazes de imitá-los.
Tudo se passa como se o mundo simbólico, do cinema no caso, não devesse ter relação com o mundo empírico, de tal modo que Nascimento só existe como ser ideal. O sujeito que o evoca, assim como se evoca o Super-Homem, é o mesmo que não admitiria um policial perto de sua filha. O mundo das imagens não é, em definitivo, o mundo real.
Como se nossa experiência cultural conduzisse a um tipo de esquizofrenia, em que nos miramos e de certa forma aspiramos ao heroísmo cultivado pelo cinema americano, mas somos simplesmente incapazes de inserir esse tipo de experiência na nossa vivência cotidiana. Porque Nascimento é tragicamente cortado de sua sociedade.

Em seu mundo
Ainda que vivendo na Tailândia, isolado, ignorado por todos, John Rambo está de certa forma em seu mundo, é capaz de reencontrá-lo. Já o capitão está cortado de seu mundo: o Bope, mais que uma tropa de elite, é um refúgio, um lugar que constrói à sua imagem e semelhança, mas que, para existir, o isola até mesmo da mulher e do filho.
Porque o seu mundo é o da eficiência e de uma lógica simples: se a polícia existe para combater o crime, ela não pode se associar a ele. Mas o capitão vive em um mundo que não foi feito para funcionar. Podemos elogiar ou questionar à vontade seus métodos e idéias.
O problema não está em eventuais virtudes ou defeitos, mas no fato de ambos existirem numa esfera exclusivamente simbólica, a do cinema, como se não concebêssemos mais, como real, outra sociedade que não a do espetáculo.
Esse mundo simbólico que não mantém relação com o real é tão doentio quanto a incapacidade de distinguir os heróis do cinema da vida. Nesse sentido, "Tropa de Elite" é um fenômeno terrivelmente saudável, entre outras porque desvenda alguns dos impasses em que vivemos afundados.

Conheça os longas-metragens da série americana Rambo - Programado para Matar (1982)
John Rambo é um veterano de guerra que tem flashbacks de torturas sofridas no Vietnã, ao ser preso injustamente em Washington. Ele enfrenta policiais em uma guerra particular na floresta, mas se rende.

Rambo 2 - A Missão (1985)
Preso, Rambo tem uma oferta para ganhar a liberdade caso retorne ao Vietnã para resgatar presos americanos. Lá, descobre que a missão era uma armadilha e tem apenas faca, arco e flecha para sobreviver.

Rambo 3 (1988)
O veterano busca paz espiritual em um templo budista na Tailândia, mas seu retiro é interrompido quando se vê forçado a resgatar seu amigo e mentor, coronel Trautman, preso por soviéticos no Afeganistão.

Rambo 4 (2008)
Ele volta à Tailândia, mas, após 18 anos de vida pacata, entra novamente em ação para resgatar um grupo de missionários que é seqüestrado pelo Exército de Mianmar quando levava comida para a tribo karene.


Nascimento e morte

Filme de José Padilha representa ao mesmo tempo ruptura e continuidade em relação ao cinema policial brasileiro


Antielitismo rasteiro é um dos principais responsáveis pela grande empatia do filme

RAFAEL DE LUNA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O principal mérito do longa-metragem "Tropa de Elite", de José Padilha, é o de despertar controvérsias. E elas vão continuar, apesar da unanimidade que se tenta impor justificada pelo enorme sucesso de bilheteria (que salvou do fiasco comercial o cinema brasileiro em 2007), pelos elogios de parcelas da crítica que encontram inegáveis qualidades estéticas na obra (freqüentemente avaliadas como divorciadas da política) e, mais recentemente, por ter ganho o Urso de Ouro no Festival de Berlim, no último dia 16.
A premiação internacional serviria para "calar" aqueles que ainda insistem no debate, sob o risco de estarem investindo contra os interesses do cinema brasileiro ou parecerem ignorantes teimosos que não "compreenderam" o filme. Ainda assim, insisto.
"Tropa de Elite" segue a tese do filme anterior de José Padilha, o documentário "Ônibus 174", expressa claramente na narração do sociólogo Luiz Eduardo Soares (co-autor do livro "Elite da Tropa"), que acompanhava as imagens finais da tentativa de linchamento do seqüestrador Sandro pela multidão e o trajeto da viatura onde ele foi assassinado (ou "asfixiado") por policiais. Ou seja, uma Polícia Militar assassina é um desejo inconfesso do povo. Ela é fruto da sociedade. Mas os criminosos também o são.
Ao longo de sua história, o cinema brasileiro tomou como personagem privilegiado o marginal, oprimido pela sociedade e que não encontra saídas além de ingressar na vida do crime. Nos anos de 1960 e 1970, em filmes como "Assalto ao Trem Pagador", "Mineirinho Vivo ou Morto" e "Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia", entre outros, os personagens bandidos ganhavam alguma legitimidade como vítimas das injustiças sociais, num quadro em que, de alguma maneira, os filmes de cangaceiros também se encaixavam.
Nos últimos anos, com a sensação de um crescimento assustador da violência urbana, especialmente no Rio de Janeiro, o foco parece se deslocar para personagens que, ilesos ou não, buscam de diversas maneiras escapar da pobreza e do crime, como o Buscapé de "Cidade de Deus" ou o protagonista de "Querô".
Em relação a uma linhagem do filme policial brasileiro, "Tropa de Elite" é ao mesmo tempo uma ruptura e uma continuidade. Apesar de se diferenciar por tomar como protagonista um policial, o filme de José Padilha não foge à tradição dos personagens marginalizados, impotentes em um universo que não controlam e em crise pela incompatibilidade entre o ofício e a necessidade de segurança e paz na vida familiar.
Apesar de o Capitão Nascimento e o Bope serem a elite da tropa, eles representam também uma minoria, um grupo marginal dentro do universo muito mais amplo da Polícia Militar e do aparato estatal como um todo.
Mas todas essas contradições são frutos do "sistema", explica a narração do Capitão, desfiando um antielitismo rasteiro que é um dos principais responsáveis pela grande empatia do filme. Policial do Bope não tem carro importado nem casa com piscina. "Faca na caveira e nada na carteira", debocha um PM quando os "homens de preto" aparecem para salvar o dia.
Lógico, afinal de contas, rico não presta, sejam os oficiais e políticos corruptos ou os alienados filhinhos de papai. E os pobres? Quem mandou morar em favela cheia de bandido? Se o favelado é inocente, basta trancar a porta do barraco e se proteger de bala perdida, porque o Bope só tortura quem tem o rabo preso.
Um dado novo apresentado por "Tropa de Elite" é justamente a eficiência. É com um orgulho quase ufanista que louvamos a melhor tropa do mundo. Para matar bandidos em favela, com o brasileiro não há quem possa!
De "Nascido para Matar" a "Até o Limite da Honra", os artifícios do cinema de ação são traduzidos com perfeição para o cenário nacional. Mais do que um Rambo, Wagner Moura cria uma autêntica versão brasileira do policial John McLane de Bruce Willis, que, em meio a crises familiares e profissionais, destila carisma e violência.
Se os americanos sempre salvaram o mundo dos terroristas europeus ou árabes, pelo menos no Rio de Janeiro quem manda é o Capitão Nascimento, como mostraram dezenas de piadas que ainda circulam na internet.
No retrato traçado por "Tropa de Elite", o Bope representa a eficiência absoluta -o drama do Capitão Nascimento é justamente encontrar seu substituto "perfeito"- e também a reserva moral da polícia e, conseqüentemente, do Estado.
Com a autoridade concedida por justificativas econômicas (o pertencimento à classe média responsável e trabalhadora), morais (a honestidade a toda prova) e técnicas (a superioridade indiscutível em seu ofício), a elite da tropa tem todos os motivos para fazer o que acha melhor, inclusive transgredindo as leis de um sistema podre.
Os fins justificam os meios, sobretudo se quem o faz é considerado autorizado para tal. Como o personagem de Charles Bronson da série "Desejo de Matar", torna-se lícito reunir na mesma figura juiz, júri e executor.
Apesar do tiro disparado na nossa cara, o longa-metragem de José Padilha, no final das contas, é um alívio para as aflições da classe média honesta e sofredora.
Após dezenas de filmes insistirem em tirar seu sono, atribuindo-lhe culpa ou preocupação, ela poderá enfim dormir em paz. Se seus privilégios são defendidos ardorosamente por "Meu Nome É Johnny", sua segurança é plenamente garantida por "Tropa de Elite". Fiquemos tranqüilos: enquanto o Capitão Nascimento vai merecidamente aproveitar o "happy end" com a mulher e filhinho, o Capitão Matias vai seguir aniquilando os malfeitores.


RAFAEL DE LUNA FREIRE é professor de preservação, restauração e políticas audiovisuais no curso de cinema da Universidade Federal Fluminense e autor de "Navalha na Tela - Plínio Marcos e o Cinema Brasileiro" (Tela Brasilis).

A doença e sua cura

"Tropa de Elite" instala a dúvida, enquanto "Rambo" recorre a músculos

CÁSSIO STARLING CARLOS
CRÍTICO DA FOLHA

Primeiro, veio a recepção da imprensa internacional, que tratou o filme quase unanimemente a pedradas. Depois, a consagração do júri no Festival de Berlim, com a escolha de "Tropa de Elite" para receber o Urso de Ouro. Entre os dois, repetiu-se o mesmo fenômeno midiático que cercou o lançamento do filme no Brasil e seu conseqüente ótimo resultado nas bilheterias, numa espécie de confirmação do velho ditado "falem mal, mas falem de mim".
Já as acusações recorrentes de "fascismo", que voltaram a circular nas críticas feitas ao filme, desta vez pela imprensa internacional, chamam a atenção por constituir a reação quase universal daqueles que repudiam o filme de José Padilha. Resta saber a que fascismo se referem.
O retorno iminente de outro herói, John Rambo, também considerado em seu tempo um ícone do fascismo, um portador do pior da América dos anos Reagan, ajuda a estabelecer algumas nuanças relativas ao uso indiscriminado dessa expressão, que faz as vezes de xingamento.

Fuzil apontado
Quando assisti ao filme de Padilha pela primeira vez, já havia lido e relido textos que atacavam o filme pelo suposto teor fascista de sua mensagem.
Mas, diante do plano final, com aquele fuzil apontado contra a cara de todos na platéia, saí da sessão a me perguntar se é o filme que é fascista ou se ele traz à tona, de modo astuto e insidioso, nosso fascismo cotidiano e inconfessável sob a forma de desejo de extermínio.
Pelo fato de essa reação comportar a ambigüidade, provocar esse ruído em sua recepção, fiquei convencido de que "Tropa de Elite" trazia algo de saudável. O que se confirmou em seguida, com a calorosa e importante discussão social provocada pelo filme.
Por outro lado, é preciso reiterar que o ótimo desempenho de bilheteria do longa de Padilha se deve em parte às platéias que cultuam o Capitão Nascimento como uma versão longe de Hollywood e perto do coração do velho e sempre eficaz Rambo.
Não à toa seu bordão pegou, dizem, no meio dos pitboys e outras espécies de aborígenes. E paira a dúvida, acima de tudo, se o filme teria tido tanto sucesso se houvesse algum tipo de punição às atitudes do Capitão Nascimento.
Já o retorno do soldado programado para matar, encarnado ainda uma vez pelo agora sessentão Sylvester Stallone, é um filme que não provoca nenhum tipo de ambigüidade.
Tudo recomeça com Sly do seu jeito Rambinho Paz e Amor, quieto no seu recanto tailandês enquanto militares birmaneses abastecidos pelo tráfico de drogas praticam genocídio na vizinhança.
Basta, porém, que um grupo de defensores de direitos humanos, obviamente americanos brancos e cristãos, sejam atacados para que Rambo se transforme ainda uma vez em eficaz máquina de extermínio.
À diferença do personagem de Wagner Moura, o de Stallone não admite opções. Seu funcionamento robótico é o mesmo das máquinas, nas quais, uma vez que seu mecanismo é posto para funcionar, não há nada que as controle.

Heróis brutamontes
E só nos resta torcer para que ele elimine o maior número possível de inimigos, retratados mais uma vez como uma sub-espécie de militares do Terceiro Mundo, todos sem nome, interpretados de modo a reiterar a animalidade dos tipos, ou seja, banir da tela qualquer resquício de humanidade ou de valores humanistas, tanto de um lado como de outro das metralhadoras.
Isso tudo faz lembrar "Cobra", outro filme protagonizado por Stallone nos anos 80, que provocou reações semelhantes e teve várias cenas cortadas pela censura brasileira -a distribuidora acabou retirando-o de cartaz às pressas.
Sob o slogan "o crime é uma doença; eu sou a cura", o tenente Mario Cobretti, vulgo Cobra, satisfazia os delírios sanguinários de platéias cujo desejo de diversão rima sem pudores com destruição.
O que não se vê em toda essa linhagem de heróis brutamontes é a ação corrosiva da dúvida. Nenhum deles sofre de pânico ou assume ter planos de abandonar aquele tipo de vida, como Nascimento.
Não se trata aqui, obviamente, de encontrar rastros de humanidade para poupar o personagem de Wagner Moura dos significados negativos que ele encarna. É inegável que há uma atitude de eliminação em sua relação de poder com aqueles que persegue.
Além disso, a narração do filme em "off" funciona como elemento fortíssimo de identificação. E Padilha certamente levou isso em conta como potencial isca de bilheteria, mesmo sob o risco de elevar um exterminador ao patamar de herói.
Mas há nele outra força inoculada, que John Rambo trocou pelo exclusivo uso dos músculos: a dúvida.

Do "love" à guerra

Inspirada em pop romântico, música-símbolo de "Tropa de Elite" dissemina-se em discos, celulares e estádios de futebol

ERNANE GUIMARÃES NETO
DA REDAÇÃO

A canção pop "Your Love" atingiu a 6ª posição na parada Billboard em 1986, ficando 22 semanas entre os "100 mais" da lista elaborada pela revista norte-americana homônima. Desde essa época a composição, do primeiro álbum do grupo britânico The Outfield, não pára de nos atravessar por ondas de rádio.
Mesmo que esses nomes não sejam lembrados por muitos leitores, a canção faz parte da paisagem sonora no Brasil. E, antropofagicamente apropriada, participa cada vez mais da cultura do país: sua melodia é a base do "Rap das Armas", criação de 1992 alçada a sucesso nacional no ano passado, com o filme "Tropa de Elite".
"Your Love", aquela do refrão "I just wanna use your love tonight/ I don't wanna lose your love tonight" [Só quero usar teu amor nesta noite/ Não quero perder teu amor nesta noite], começa com as mesmas notas que, nas versões em português, são cantadas com a onomatopéia bélica "parapapapapapapapapapa".
Enquanto o pop tipicamente oitentista falava de relações românticas de uma maneira descompromissada, o "Rap das Armas" oficial, cantado pela dupla MC Junior e MC Leonardo, denuncia a violência. Em sua invocação, a letra de Leonardo anuncia que vai "falar de um problema nacional", antes de listar mais de 20 nomes de armas -técnicos, como M-16, ou coloquiais, como "oitão".
Seria uma ironia? MC Leonardo diz à Folha que sua inspiração em "Your Love" foi puramente musical, e que desconhece a letra em inglês. Segundo o autor, a composição surgiu originalmente como uma descrição das belezas do Rio de Janeiro, mas só emplacou depois que ele acedeu à sugestão de incluir as armas na letra.

Glamourização
Simone Pereira de Sá, professora de comunicação na Universidade Federal Fluminense que pesquisa o funk na condição de "música eletrônica popular brasileira", ri da ironia involuntária: "É a polissemia, o deslize dos significantes, que faz parte da história da música "massiva", gravada. Você escreve a música com um sentido e não sabe o que vão fazer dela".
Na controvertida reinterpretação que circulou com os milhões de DVDs piratas comercializados antes do lançamento do filme, a denúncia é deixada de lado em favor de uma violenta e bem-humorada descrição do conflito entre facções armadas de duas favelas.
A apropriação da canção pelos colegas de baile e pela pirataria deu azo a críticas que põem a cultura funk no mesmo balaio de filmes que fazem a "estetização da violência", como "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite".
A teórica do funk apressa-se em defender seu campo de estudo: "Para circular, há "estetização", de seja o que for: a política, a violência, o amor. Isso não anula o potencial político, social, de discutir a violência", diz Simone Sá.

Antropofagia nos une
A versão mais violenta não prejudicou tanto Leonardo, pois tanto ele e o irmão Junior quanto Cidinho e Doca estão na trilha sonora de "Tropa de Elite", que já vendeu mais de 28 mil CDs. Segundo a gravadora EMI, já foram vendidos mais de 50 mil toques de celular com o "Rap das Armas". Leonardo esclarece que não ficaram rusgas entre os dois grupos.
O toque de celular pode ser ouvido em estádios como o Morumbi, em São Paulo, onde o deslocamento temático atingiu um nível mais extremo.
A canção melosa, transformada em funk por um jornaleiro que admirava as paisagens fluminenses, mas era atento à crise social, e foi apropriada como ode à guerra do tráfico, espalhou-se por outros Estados brasileiros como hino da guerra lúdica do futebol, entoado pelas torcidas organizadas. "Parapapapapapapapa clac bum, Torcida Independente derrubou mais um."

NA INTERNET - Leia a íntegra deste texto e ouça trechos de "Your Love" e "Rap das Armas" em www.folha.com.br/080521
José Augusto De Blasiis