terça-feira, março 10, 2009

VERÃO DE CLÁSSICOS

14 de janeiro a 15 de março de 2009


Em março, a Cinemateca Brasileira apresenta a última parte de sua programação de férias, VERÃO DE CLÁSSICOS. Neste mês, os aficcionados por fantasia e ficção científica poderão conferir a exibição de Latitude zero, uma inusitada mistura de aventura marítima e filme de monstros. Para as crianças, há a animação japonesa O navio voador, uma raridade do acervo da Cinemateca Brasileira. O público terá a chance de conhecer também uma série de comédias e melodramas silenciosos de média-metragem produzidos em Hollywood nas décadas de 1910 e 1920, e ainda uma obra menos conhecida do mestre italiano Vittorio De Sica, O teto. Por fim, vale mencionar o resgate de um cult movie dos anos 80 cuja crueza no trato da violência gerou controvérsia à época de seu lançamento: Retrato de um assassino, ainda inédito em DVD no Brasil.


CINEMATECA BRASILEIRA

Largo Senador Raul Cardoso, 207

próximo ao Metrô Vila Mariana

Outras informações: (11) 3512-6111 (ramal 215)

www.cinemateca.gov.br

Ingressos: R$ 8,00 (inteira) / R$ 4,00 (meia-entrada)

Atenção: estudantes do Ensino Fundamental e Médio de escolas públicas têm direito à entrada gratuita mediante a apresentação da carteirinha.


PROGRAMAÇÃO


03.03 | TERÇA

SALA CINEMATECA BNDES

19h30 OS GALHOS DA ÁRVORE

04.03 | QUARTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 DÁ-ME UM BEIJO, SIM? | ATÉ QUE NOS TORNEMOS A VER

20h30 LATITUDE ZERO

05.03 | QUINTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 OS GALHOS DA ÁRVORE

21h00 CALÇAS COMPRIDAS | PRINCESA DE IMPROVISO | INCLINAÇÃO PELO PALCO

06.03 | SEXTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 LATITUDE ZERO

21h00 DÁ-ME UM BEIJO, SIM? | ATÉ QUE NOS TORNEMOS A VER

07.03 | SÁBADO

SALA CINEMATECA BNDES

18h00 CALÇAS COMPRIDAS | PRINCESA DE IMPROVISO | INCLINAÇÃO PELO PALCO

20h00 OS GALHOS DA ÁRVORE

08.03 | DOMINGO

SALA CINEMATECA BNDES

16h00 CALÇAS COMPRIDAS | PRINCESA DE IMPROVISO | INCLINAÇÃO PELO PALCO

18h00 LATITUDE ZERO

20h00 DÁ-ME UM BEIJO, SIM? | ATÉ QUE NOS TORNEMOS A VER

10.03 | TERÇA

SALA CINEMATECA BNDES

19h30 VERÃO FELIZ

11.03 | QUARTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 RETRATO DE UM ASSASSINO

20h30 O TETO

12.03 | QUINTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 O NAVIO VOADOR

20h00 VERÃO FELIZ

13.03 | SEXTA

SALA CINEMATECA BNDES

18h30 O TETO

20h30 RETRATO DE UM ASSASSINO

14.03 | SÁBADO

SALA CINEMATECA BNDES

18h00 O NAVIO VOADOR

20h00 VERÃO FELIZ

15.03 | DOMINGO

SALA CINEMATECA BNDES

16h00 O NAVIO VOADOR

18h00 RETRATO DE UM ASSASSINO

20h00 O TETO


FICHAS TÉCNICAS E SINOPSES



Até que nos tornemos a ver (Till we meet again), de Christy Cabanne

EUA, 1922, 35mm, pb, 39’ | Intertítulos em português

Julia Swayne Gordon, Mae Marsh, J. Barney Sherry, Walter Miller

Melodrama sobre uma orfã internada numa instituição psiquiátrica por um inescrupuloso contador que planeja ficar com a fortuna de sua tutora. Livre

qua 04 18h30 | sex 06 21h00 | dom 08 20h00


Calças compridas (Long pants), de Fred Guiol

EUA, 1926, 35mm, pb 25' | Intertítulos em português

Glenn Tryon, Vivien Oakland

Comédia sobre um simplório rapaz do interior que, inspirado pelas novelas românticas que gosta de ler, quer tornar-se um grande conquistador. Livre

qui 05 21h00 | sáb 07 18h00 | dom 08 16h00


Dá-me um beijo, sim? (The chorus girl's romance), de William C. Dowlan

EUA, 1920, 35mm, pb, 34' | Intertítulos em português

Viola Dana, Gareth Hughes, Phil Ainsworth, William Quinn

Adaptado de um conto de F. Scott Fitzgerald, narra a história de dois amantes - uma jovem atriz e um rapaz de família abastada – que decidem tentar a sorte no show business em Nova York. Livre

qua 04 18h30 | sex 06 21h00 | dom 08 20h00


Os galhos da árvore (Shakha proshakha), de Satyajit Ray

Índia/França/Inglaterra, 1990, 35mm, cor, 130' | Legendas em português

Ajit Bannerjee, Haradhan Bannerjee, Soumitra Chatterjee, Depankar De

Penúltimo filme do grande mestre do cinema indiano, sobre quatro irmãos que se reencontram quando o pai deles sofre um ataque cardíaco, trazendo à tona mentiras e decepções. Não indicado para menores de 14 anos

ter 03 19h30 | qui 05 18h30 | sáb 07 20h00


Inclinação pelo palco (Stage struck), de Edward Morrissey

EUA, 1917, 35mm, pb, 38’ | Intertítulos em português

Dorothy Gish, Frank Bennett, Fred Warren, Spottiswoode Aitken

Jovem do interior abandona a família e vai para a cidade tentar a vida como atriz. Livre

qui 05 21h00 | sáb 07 18h00 | dom 08 16h00


Latitude zero (Ido zero daisakusen), de Ishirô Honda

EUA/Japão, 1969, 35mm, cor, 108’ | Falado em inglês | Sem legendas

Joseph Cotten, Cesar Romero, Akira Takarada, Masumi Okada

Depois de um acidente no fundo do mar, dois cientistas e um repórter são recolhidos por um submarino e levados para uma cidade fantástica, aterrorizada por monstruosas criaturas gigantes. Livre

qua 04 20h30 | sex 06 18h30 | dom 08 18h00


O navio voador (Sora tobu yûreisen), de Hiroshi Ikeda

Japão, 1969, 35mm, cor, 60’ | Legendas em português

Animação. Depois de perder seus familiares, atacados por um robô gigante, um garoto sai em busca dos

responsáveis pela tragédia, numa cidade controlada por fantasmas e máquinas gigantescas. Livre

qui 12 18h30 | sáb 14 18h00 | dom 15 16h00


Princesa de improviso (A small town princess), de Edward F. Cline

EUA, 1927, 35mm, pb, 27’ | Intertítulos em português

Billy Bevan, Madeline Hurlock, David Manor, Nat Carr

Comédia do lendário produtor Mack Sennett sobre garota do interior que decide tentar a sorte em Hollywood. Livre

qui 05 21h00 | sáb 07 18h00 | dom 08 16h00


Retrato de um assassino (Henry: Portrait of a serial killer), de John McNaughton

EUA, 1986, 35mm, cor, 83’ | Legendas em português

Michael Rooker, Tracy Arnold, Tom Towles, Denise Sullivan

Baseado em história real, o filme relata os assassinatos praticados por um psicopata que divide um apartamento com um ex-colega de prisão e a irmã dele, uma stripper recém-divorciada. Não indicado para menores de 18 anos

qua 11 18h30 | sex 13 20h30 | dom 15 18h00


O teto (Il tetto), de Vittorio De Sica

Itália/França, 1956, 35mm, pb, 91’ | Legendas em português

Gabriella Pallotta, Giorgio Listuzzi, Maria Di Fiori, Emilia Maritini

Na Itália do pós-guerra, um jovem casal decide construir uma casa num terreno baldio da prefeitura. Mas, por razões jurídicas, terão de erguê-la numa única noite e instalar o teto ainda antes do alvorecer. Não indicado para menores de 14 anos

qua 11 20h30 | sex 13 18h30 | dom 15 20h00


Verão feliz (Kikujiro), de Takeshi Kitano

Japão, 1999, 35mm, cor, 121’ | Legendas em português

Takeshi Kitano, Yusuke Sekiguchi, Kayoko Kishimoto, Yuuko Daike

A jornada de um garoto de nove anos de idade em busca da mãe que nunca conheceu, na companhia de um cinqüentão impaciente e arrogante. Livre

ter 10 19h30 | qui 12 20h00 | sáb 14 20h00

Do portal G1.

Falta de bons atores prejudica desempenho de 'Watchmen'

Intérprete de Rorschach é destaque, mas não supera Coringa de Ledger.
Superficialismo do diretor põe em cheque complexidade da HQ original.

Mateus Potumati Especial para o G1

Cena do filme 'Watchmen', com previsão de estréia para março (Foto: Divulgação)

A partir desta sexta, o mundo de fãs de quadrinhos se mobiliza para cumprir uma obrigação solene: assistir à estreia de “Watchmen - O filme” – a mais aguardada, patrulhada e conturbada adaptação de uma HQ para o cinema na história. Se você não se enquadra necessariamente nessa categoria (o que, pela matemática, provavelmente é o caso), talvez esteja se perguntando, “o que eu tenho a ver com isso?"

Quem vai ao cinema sem conhecer a história e espera um filme de ação cheio de pancadaria, efeitos e trama policial, precisa entender umas coisas antes. “Watchmen” não é uma história de super-herói qualquer. E isso, por mais que pareça o papo daquele amigo nerd que tentava convencê-lo a ler gibi, é bem sério. “Watchmen” se situa junto às melhores obras de ficção científica e política do século XX. É pesado, perturbador e complexo.

A história é hermética, construída sobre referências ao universo dos heróis – o Comediante, por exemplo, é uma versão psicologicamente deformada do Capitão América; Dan Dreiberg, alter-ego do Coruja, é como um Clark Kent que resolveu levar uma vida normal.

O contexto político também exige algum embasamento: o mundo onde se passa a trama é uma realidade paralela situada nos anos 1980, que faz os reacionários anos Reagan parecerem o governo Obama. Nele, os EUA ganharam a Guerra do Vietnã – com a ajuda dos heróis –, e a tensão entre EUA e URSS está prestes a esquentar a Guerra Fria. O presidente do país, pela terceira vez consecutiva, é o ultra-conservador Richard Nixon, que na vida real renunciou em 1974 após o escândalo Watergate.

É uma realidade distante até dos jovens americanos de hoje, quanto mais dos brasileiros. “Watchmen” exige um comprometimento muito maior do que “Homem-Aranha”, e estômago mais forte do que “Batman – O cavaleiro das trevas”. Não é filme para levar a namorada, a não ser que a sua namorada realmente goste de ver filmes. Portanto, só vá ao cinema se você estiver disposto a entender isso – e nesse caso vá mesmo, que a sessão vale o ingresso.

Se você, ao contrário, já sabe mais ou menos o que esperar, a conversa é outra. A principal pergunta que todos se faziam, desde que a história toda começou, era: “vai ser fiel à HQ?” Isso, você também já deve saber, está garantido. Qualquer adaptação para o cinema sempre engole algumas coisas e enxuga outras, mas o principal está ali, imaculado até às citações textuais exatas – exceção feita ao final, diferente na solução mas essencialmente o mesmo.

Jackie Earle Haley como Rorschach, em cena de 'Watchmen'

Atores inexpressivos

O fato de seguir à risca uma história genial, levada às telas com preciosismo técnico e estético incomparável, garante um filme no mínimo bom. Isso, certamente, vai fazer a alegria da grande maioria dos exigentes fãs da história. Mas, fora isso, o que há em “Watchmen”?

Do ponto de vista do elenco, faltam atuações memoráveis. É algo dispensável em filmes comuns de herói, mas um projeto com tantas ambições deveria considerar melhor a possibilidade.

A decisão de não escalar atores famosos aparentemente buscou priorizar a trama, mas personagens fortes saíram prejudicados, como o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) e o Dr. Manhattan (Billy Crudup). O único destaque é Jackie Earle Haley, que faz Rorschach, narrador e personagem principal. Firme e soturno, Haley ficou à altura do papel. Mesmo assim, não chega perto da atuação de Heath Ledger em “Cavaleiro das trevas”.

As escolhas da adaptação prejudicaram pelo menos duas cenas fundamentais: as sessões de Rorschach com o psicólogo e as divagações do Dr. Manhattan em Marte. Resumidas demais, ambas perderam em profundidade.

Em outros momentos, quando a adaptação insere elementos alheios ao original, a qualidade dos diálogos e do andamento cai. Isso é perceptível na sequência final, ou na pirotecnia dispensável na cena de orgasmo de Espectral.

Esses detalhes devem excluir o filme da disputa por algum prêmio nobre do cinema e são indícios das deficiências de Snyder, que se sai bem apenas quando se limita à reprodução literal do original. É provável que ele nunca tenha tido tais ambições, mas a história certamente tinha espaço para isso.

Desfecho conservador

Apesar do contexto político distante, também é inevitável pensar nos anos Bush. A história de Alan Moore joga com a ambiguidade entre mentira e verdade, bem e mal, meios e fins, expondo a complexidade das relações éticas e morais humanas. Nada mais adequado, portanto.

Na adaptação, como o andamento é mais superficial, essa discussão fica esvaziada. No final, é quase como se o desfecho conservador fosse justificado, como a invasão de certo país do Oriente Médio mediante a bravata da destruição em massa. Não se trata de acusar Snyder de propaganda republicana, mas o mal-estar esperado, que seria bem vindo, fica amenizado.

Seja como for, “Watchmen – O filme” tem o notável mérito de gerar esse tipo de discussão em torno de uma história em quadrinhos, e amplificá-la em escala geométrica. Resta saber o que você, que não conhece o quadrinho, vai achar.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Um panorâma sobre Shakespeare, autor que será estudado pelos alunos do atual quinto semestre. Leiam que trata-se de um bom trabalho, do escritor Voltaire Schiling.

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Shakespeare e o seu tempo

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Shakespeare
Escolhido pelo ingleses como a personalidade do milênio, sabe-se porém muito pouco sobre a vida de William Shakespeare. Descrever as circunstâncias gerais da época em que ele viveu não explica o seu gênio, mas ajuda a entender o motivo de certos temas que ele abordou.

O artista e as suas circunstâncias


"A fim de imaginarmos, de forma aproximadamente precisa, determinada pessoa, temos antes de mais nada de estudas a sua época, fase em que podemos até mesmo ignorá-la, para depois, a ele retornando, encontrar o maior agrado na sua contemplação."
Goethe em carta a Zelter, 1828

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Isabel I, a rainha herética
O cenário histórico em que viveu Shakespeare foi inteiramente dominado pela forte presença da polêmica personalidade de Isabel I (1558-1603), chamada pelo povo de Good Queen Bess. Ela reinou na Inglaterra por longos 45 anos. Nesse quase meio século, em suas questões domésticas, o trono de Isabel não só foi ameaçado por vários complôs e atentados, como também enfrentou, vindo de fora, sérios desafios à sua sobrevivência como reino. O reino foi palco de vários conflitos religiosos e teológicos que separavam os católicos (papistas), os calvinistas (puritanos) e os que seguiam a religião oficial (anglicanos).

A execução de Mary Stuart

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Mary Stuart, executada pela prima
Num dos mais escandalosos affairs daquele época, os que faziam oposição à política pró-protestante da rainha Isabel (que apoiou o levante dos Países Baixos contra o domínio católico espanhol em 1572), conspiraram para que a sua prima Mary Stuart da Escócia a sucedesse. Naquela época, Mary encontrava-se aprisionada na própria Inglaterra, onde viera buscar abrigo depois de ter sido apontada como suspeita no assassinato do seu marido, Lord Darnley. Os conspiradores católicos, se bem sucedidos, queriam que ela ascendesse ao trono da prima herética, envolvendo-a numa confusa e perigosa correspondência. Descoberta a trama, a bela Mary Stuart foi decapitada em 1587, tornando-se uma mártir do catolicismo.

A excomunhão de Isabel

A execução de um rainha católica em mãos de uma governante considerada herética, como era o caso de Isabel (filha de Henrique VIII com Ana Bolena), soou como uma declaração de guerra. O que motivou o papa Pio V a lançar a Bula da Excomunhão autorizando a qualquer católico participar da deposição e até da morte de Isabel, se tal fosse possível . Desde então, o reino passou a conviver com a constante ameaça de uma invasão da parte da Espanha, a maior potência católica do mundo e senhora de um império onde "o Sol nunca se punha." Para realizar tal intento, visando esmagar aquela ilha que abrigava a heresia, Felipe II, o rei espanhol, organizou em 1588 uma poderosa expedição naval-militar.

A invencível armada

A então chamada "invencível armada" tinha a missão de ir ocupar a Inglaterra. A enorme operação naval fracassou devido a uma série de tormentas que desbarataram boa parte da esquadra, e, claro, à bravura dos marinheiros ingleses, liderados por Francis Drake, que conseguiram abordar e destruir as naus dos invasores espanhóis que restaram. Curiosamente, enquanto Cervantes na Espanha arrecadava recursos para prover a grande esquadra, Shakespeare em Londres, provavelmente na mesma época, recolhia material para suas peças patrióticas.

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O Desastre da Armada, 1588

Shakespeare registrou esse extraordinário acontecimento que salvou o país de uma ocupação estrangeira na peça Cimbelino (ato III, cena 1): "lembrai-vos... das resistências naturais que vossa ilha oferece, verdadeiro jardim de Netuno, eriçada, estacada com rochas inacessíveis, vagas bramindo, bancos de areia que, em vez de sustentarem os navios inimigos, os engoliriam até os mastros... um desastre, o primeiro que jamais o atingiu, repeliu das nossas costas, duas vezes vencido, e os seus navios, simples joguetes dos nossos terríveis mares, sacudidos pelas ondas, esmagaram-se facilmente como casacas contra os nossos rochedos."


A abdicação de Ricardo II:
o rei das dores
Após liderar um bem-sucedido levante contra o rei Ricardo II, seu primo Bolingbroke recebe a coroa real, depois da abdicação pública do rei deposto. Entra o rei caído com um grupo de oficiais levando a coroa.

Rei Ricardo: Ai! Por que me vejo obrigado a comparecer ante um rei antes de haver sacudidos os pensamentos reais pelos quais eu reinava? Apenas aprendi a insinuar-me, adular, inclinar-me e dobrar os membros. Daí tempo para o meu pesar, para eu instruir-me nesta submissão. Não obstante recordo perfeitamente os traços destes homens. Não me pertenciam? Não me saudavam gritando: "Salve?" Assim fazia Judas com Cristo. Mas ele entre doze homens não encontrou mais do que só falso; eu, entre doze mil, não acho um só fiel. Deus salve o rei! Ninguém contestará: Amém? Devo ser ao mesmo tempo sacerdote e acólito? Pois bem: amém. Deus salve o rei, ainda que já não seja!

York: Para cumprir de bom grado o que a fadigas da majestade te fizeram oferecer: a resignação do teu poder e da tua coroa a favor de Henrique Bolingbroke.

Rei Ricardo: Dai-me a coroa. Tomai-la aqui, primo, deste lado minha mão, do outra a vossa. Esta coroa de ouro assemelha-se agora a um poço profundo, no qual se encontram alternativamente dois recipientes: no alto como que sempre bailando no ar, o que está vazio; o outro, abaixo, invisível e enchido de água; sou eu o recipiente que se encontra embaixo, transbordando em lágrimas; bebo minhas dores enquanto vós ascendeis ao alto.

Bolingbroke: Acreditas que renuncias voluntariamente à coroa?

Rei Ricardo: A minha coroa sim, mas minhas dores serão sempre minhas. Podeis despojar-me do meu poder e das minhas dignidades, mas não das minhas dores: delas sempre serei rei.

(o rei Ricardo II, Ato IV, cena única)

A conspiração da pólvora

Outra tentativa mal-sucedida de derrubar o regime naquela época foi a chamada Conspiração da Pólvora (Gunpowder plot), quando, liderados por Robert Catesby, um grupo de militantes católicos, entre os quais se encontrava o pouco conhecido Guy Fawkes, tentou explodir o Parlamento. O seu plano era colocar 32 barris de pólvora no porão do grande prédio para detoná-los no dia em que o rei Jaime I e sua corte estivessem presentes. Os conspiradores foram detidos no dia cinco de novembro de 1605, bem antes de consumarem o seu infeliz intento. Tão impopular foi tal tentativa que até hoje a data da captura de Fawkes é feriado na Inglaterra, celebrando-se a sacralidade e a intocabilidade do Parlamento como representante máximo da vontade do povo.

A situação material da Inglaterra isabelina

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Torre de Londres, prisão do Estado
A Inglaterra do século XVI era um país pobre. Boa parte da aristocracia feudal havia sido dizimada na Guerra das Duas Rosas, entre as famílias Lancaster e York, que se estendeu de 1455 a 1 485, quando Henrique VII, Tudor, ascendeu ao trono, pondo fim à guerra civil. O outro acontecimento espetacular deu-se com a ruptura da monarquia inglesa com a Igreja Católica, quando o rei Henrique VIII, invocando razões de Estado, quis divorciar-se da rainha Catarina de Aragão. Como o papa não deu seu consentimento, o rei proclamou-se - por meio da Ata da Supremacia , em 1534 - soberano também sobre a religião, lançando as bases do anglicanismo. Nos anos seguintes, todos os mosteiros são suprimidos e suas propriedades vendidas à nobreza e à burguesia.

O fechamento das terras

Havia muita miséria pelos campos e pelas cidades inglesas. Uma das razões disso era a espoliativa política das enclousures, o cercamento das terras coletiva e sua apropriação por criadores de ovelhas (o próprio Shakespeare envolveu-se num problema dessa ordem quando retornou para Stratford-on-Avon), situação socialmente dolorosa, já denunciada por Thomas Morus na sua obra Utopia, de 1516. Conforme a indústria lanífera crescia nos Países Baixos, os campos ingleses passaram a dar mais espaço para ampliar as pastagens a fim de facilitar a criação de carneiros para exportar a lã.

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A dura lei da época (enforcamento coletivo)
Nobres poderosos e a gentry rural agiram brutalmente para expulsar os camponeses e aldeões das terras comuns, fazendo com que um verdadeiro mar de mendigos viesse dar com seus pobres costados nas cidades, especialmente Londres, que chegou a ter 150 mil habitantes na época de Shakespeare, fazendo com que se tornasse uma das maiores conglomerados humanos daqueles tempos. O fenômeno da crescente miserabilidade teve seus efeitos no endurecimento das leis penais, intolerantes e marcadamente punitivas que começaram a ser adotadas nos tempos de Henrique VIII, o pai de Isabel, merecendo elas, muitos anos depois, da parte de Karl Marx, um dos mais pungentes capítulos de O Capital(vol. I, cap. XXIV, 3).


Outros grandes nomes
Isso, porém, não impediu o país de conhecer um dos maiores momentos da sua expressão cultural. Chamam o período isabelino de a Era Dourada, porque naquele século viveram Christopher Marlowe (autor do Doutor Fausto), Ben Jonson ,John Lyly, Robert Greene, Thomas Nashe, George Chapman, John Marston. John Fletcher, Francis Beaumont, e o filósofo Francis Bacon,
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C.Marlowe, autor do Dr.Fausto
o qual alguns atribuíram equivocadamente ser o verdadeiro autor das obras de Shakespeare. Provavelmente aquela junção de ameaça externa movida pelo poderoso império espanhol, somada às sisões religiosas entre as várias facções do cristianismo, criaram um clima efervescente favorável à imaginação, estimulando-os a todos os tipos de criação. Como disse certa vez o doutor Johnson : "é a possibilidade de ser-se enforcado que faz com que as idéias se concentrem."

A cosmografia de Shakespeare

William Shakespeare, nascido na pequena cidadezinha de Stratford-on-Avon, nas proximidades de Londres, em 23 de abril de 1564, é unanimemente consagrado como um dos maiores nomes das letras universais. Apesar disso, sabe-se muito pouco a respeito da sua vida, causando até hoje pasmo em todo os seus admiradores o fato de um jovem ter saído de uma cidadezinha do interior da Inglaterra, sem que se saiba nada sobre sua formação, ter conseguido amealhar um cabedal tão extraordinários de conhecimentos e ter conseguido penetrado tão profundamente na psicologia humana.

Harold Bloom, o mais atualmente conhecido crítico norte-americano, coloca-o em primeiro lugar no seu cânone dos autores mais importantes do Ocidente, enquanto Otto Maria Carpeaux considerou-o "o maior poeta dos tempos modernos e - salvo as limitações do nosso juízo crítico - de todos os tempos." Parecer idêntico, aliás, ao de Ben Jonson, amigo de Shakespeare:

"...Confesso que teu escritos são tais, que nem homem nem musa podem abarcá-los suficientemente...Alma do século! Aplauso, delícia, assombro da nossa cena!... És um monumento sem tumba, e viverás enquanto viver teu livro e haja inteligências para lê-lo e elogios a tributá-lo... Triunfa Bretanha minha, pois tem um a oferecer, a quem todas as cenas da Europa irão render homenagem!... Que ele não é de um século, senão de todos os tempos...; doce cisne de Avon!...

O sucesso

Shakespeare foi um daqueles grandes escritores que conseguiu não apenas levar aos palcos a sua época, mas fazer com que elas se imortalizasse. A razão do sucesso dele são os traços marcantes dos seus personagens - rigorosamente individualizados - e o caráter universal e perene dos seus temas. Hamlet, Ricardo III, Lear, Polônio, Falsfat, Ofélia, Macbeth
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Casal de nobres num jogo de cartas
e sua terrível rainha, o ciumento Otelo, a bela e fiel Desdêmona e o invejoso Iago, tornaram-se conhecidos por todos. As suas tragédias, em grandeza e perenidade, assemelham-se aos clássicos da Ática antiga, a um Sófocles ou a um Eurípides. Porém, ao contrário daqueles autores célebres que o antecederam, ele não limitou-se apenas em reproduzir os dramas das gentes da corte, a sorte dos reis e dos seus próximos.





A riqueza temática
Em suas peças encontra-se de tudo. Não só uma imensa diversidade de tipos humanos, (reis, rainhas, príncipes, cortesãos, ministros, bufões, soldados, estalajadeiros, mulheres do povo, mercenários, comerciantes, atores, padres, escroques, mágicos, ...), como a mais variadas situações existenciais e as mais diferentes classes sociais. Como homem do Renascimento, Shakespeare desprezou as fronteiras nacionais. Os seus dramas ocorrem na Dinamarca, nas cidades italianas, na Grécia e na Roma antigas, e até numa ilha do Novo Mundo. Pode-se compará-lo, de certo modo, a Giordano Bruno ou Galileu, descobridores de uma nova maneira de ver o cosmo. Só que o cosmo de Shakespeare foi criado com as letras, com as palavras, um cosmo inteiramente humano.

Do Avon ao Tâmisa

Deixando a mulher e os filhos em Stratford-on-Avon, Shakespeare chegou a Londres provavelmente em 1584-5, com mais ou menos 20 anos, tudo indicando que logo seguiu carreira artística. Supõe-se que tenha se introduzido no teatro como ator e ao mesmo tempo como adaptador de peças, em geral de autores bem mais antigos. Estima-se que foi assim que ele dominou a literatura clássica e as técnicas da encenação. A primeira peça que escreveu foi aos 26 anos de idade, sendo que a sua primeira obra-prima (Romeu e Julieta) só surgiu quando ele atingiu os 32 anos de idade. Em 1599, Shakespeare participou da inauguração do teatro popular The Globe e, em 1608, de um outro, mais reservado, chamado Blackfriars Theatre.
reprodução (gravura da época)
O palco do Globe
De resto levou uma vida de homem de teatro, alternando as apresentações com a freqüência às tabernas, percorrendo as ruas e logradouros de Londres atrás de escritos ou de conversas que lhe servissem de inspiração. Eventualmente acompanhava o seu grupo em excursões pelo interior ou em apresentações perante uma ou outra platéia de nobres rurais, levando esse tipo de vida por uns trinta anos até que, razoavelmente abonado, retirou-se para uma honrosa aposentadoria.

A publicação da obra

Infelizmente, no tempo em que viveu, ser um autor teatral não era considerada uma profissão ilustre. Apesar de Shakespeare ter-se tornado um bem-sucedido homem de negócios e um excelente empreendedor, tudo indica que ele não se importava muito com o que escrevia. Ou pelo menos não tinha consciência do seu valor. Tanto é assim que quando morreu no seu lugarejo de nascença, em 1616 (dizem que depois de uma bebedeira na companhia de Ben Johnson, que o visitava), não havia se dado ao trabalho de juntar seus escritos numa obra só. Deixou-os dispersos. Dois de seus amigos, os atores John Hemige e Henry Condell, felizmente recolheram quase tudo que estava espalhado e publicaram o primeiro in-fólio, em 1623. A interrogação que resta a fazer sobre a atitude de Shakespeare a respeito da sua obra é se ele minimizou a importância dos seus escritos a ponto de desconsiderá-los ou se realmente jamais teve um lampejo sequer sobre a importância extraordinária que ela iria ter no futuro.



O teatro de Shakespeare

reprodução
O palco e o público do The Globe
O século XVI na Inglaterra, na época do reinado de Isabel, falecida em 1603, foi o momento de ouro da dramaturgia britânica, inteiramente dominada pela personalidade artística e pelo gênio criativo de Shakespeare, exercido por ele e por seus companheiros da Companhia do Camarlengo na sua sede à beira do Rio Tâmisa, o Globe Theatre.

A construção de um teatro

Shakespeare e a Companhia do Camarlengo (mais tarde chamada The King's men) construíram um teatro - o Globe Theatre - na margem esquerda do Rio Tâmisa, no chamado Bankside, logo após a Ponte da Torre de Londres, em 1599. As sessões só ocorriam durante a temporada de verão, pois o local não era coberto. Também as suspendiam quando havia algum surto de peste, o que ocorria freqüentemente. Aliás há estudos que mostram como as temporadas e por conseqüência as peças que o bardo escrevia eram, por assim dizer, condicionadas pelos surtos pestíferos que assolavam a capital inglesa com impressionante regularidade. Então, para ganhar a vida a companhia, partindo de Londres, fazia uma turnê pelo interior. Aliás, no Hamlet (ato III, cena II), Shakespeare faz referência a esse tipo de apresentação itinerante, de teatro ambulante mostrando a chegada de um grupo de atores ao Castelo de Elsenor para uma encenação na Corte, fazendo com que a atuação deles, ainda que indiretamente, fosse decisiva na elucidação do crime que vitimou o pai do príncipe.

Forma e dimensão:

O Globe, fazendo juz ao nome, tinha a forma de um círculo - "Wooden O" - com um grande pátio interno onde cabiam de 500 a 600 pessoas que assistiam o espetáculo a preços módicos. As arquibancadas estavam divididas em três andares erguidos ao redor do palco e acolhiam os mais aquinhoados. Calcula-se que comportava mais 1.500 espectadores, perfazendo uns dois mil ao todo nos dias de casa lotada. Sua dimensão alcançava 92 metros e tinha dez de altura. O primeiro Globe não durou muito, pois foi devorado por um incêndio em 1613, três anos antes da morte de Shakespeare, durante a encenação de Henrique VIII, quando uma fagulha do canhão saltou sobre o telhado de palha. Imagina-se que Shakespeare, já retirado para Stratford-on-Avon aposentado, deveria ter voltado para auxiliar na recuperação do prédio.

fechamento dos teatros

Em 1642, com o início da Revolução Puritana - que terminou decapitando o rei Carlos I, em 1649 - todas as casas de espetáculo foram fechadas. Os puritanos não aceitavam as representações teatrais, considerando-as pecaminosas ou heréticas. Até a morte de Cromwell em 1658, nada mais foi visto em Londres ou na Inglaterra. Somente com a restauração monárquica, com a volta dos Stuart ao poder em 1661, o rei Carlos II, determinou-se a reabertura dos espetáculos. Eles haviam ficado fechados por quase vinte anos! Mas o Globe não gozou por muito tempo a liberdade recém-conquistada, pois em 1666 um devastador incêndio arrasou com a cidade inteira, incinerando junto o belo teatro que Shakespeare ajudara à construir.

A reconstrução recente do Globe


O Globe inteiramente restaurado
Somente em agosto de 1996 concluiu-se a reconstrução do The Globe graças ao esforço de americano Sam Wanamaker, que, desde os anos de 1970, mobilizou amplos setores da sociedade e do empresariado londrino, obtendo os recursos para o seu reerguimento mais ou menos no mesmo local do antigo teatro, com o nome Globe Shakespeare Theatre. Passaram-se 330 anos desde sua última apresentação. Dessa forma, o espírito do bardo retorna às margens do Tâmisa, cujas águas serviram como uma interminável fonte de inspiração à sua imortal grandeza, dando vida ao corpo do novo teatro.




Estreeou no Brasil o filme CORALINE, baseado em livro do Neil Gaiman. O filme conta com um criativo uso da tecnologia 3D que tem retornado aos cinemas recentemente.

Confiram a crítica do editor do site Cinema em Cena, Pablo Villaça.

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As crianças gostam de sentir medo. Não o medo provocado por uma tempestade barulhenta durante a noite ou aquele que surge quando se perdem dos pais, mas sim o que nasce de uma história bem contada que envolve personagens enfrentando perigos tenebrosos e mortais. Não é à toa que muitas das melhores e mais longevas fábulas infantis são também as mais assustadoras: a bruxa prendia João e Maria para assá-los; o Lobo Mau devorava a Vovó; Pinóquio era transformado em burro e seu “pai”, engolido por uma baleia; Alice era condenada à decapitação pela Rainha de Copas. E Coraline, claro, corre o risco de ter seus olhos arrancados e substituídos por botões.



Esta, aliás, é apenas uma das ameaças enfrentadas pela protagonista deste Coraline e o Mundo Secreto, adaptado por Henry Selick a partir do livro de Neil Gaiman (sim, o Neil Gaiman), já que desde o início da projeção o espectador é surpreendido por seqüências marcantes – como, por exemplo, aquela que traz uma boneca de pano tendo a boca e a barriga rasgadas por uma mão esquelética que, depois de retalhá-la impiedosamente, a reconstrói com um rosto semelhante ao da personagem-título (que, claro, ainda não foi apresentada). E o que dizer da cena em que um garoto que comete o erro de exibir uma expressão triste é punido pela vilã ao ter sua boca costurada num sorriso forçado?



Mas creio que estou fazendo o filme soar violento demais para o público infantil quando, na realidade, Selick alcança um belo e delicado equilíbrio ao contar sua história de maneira a provocar arrepios sem, com isso, traumatizar seus jovens espectadores. E acreditem: não havia outra maneira de narrar a aventura de Coraline (Fanning), uma garota que, depois de se mudar com os pais para outra cidade, sente-se solitária por não ter com quem conversar ou brincar, já que o Pai (Hodgman) e a Mãe (Hatcher) passam todo o tempo trabalhando em um manual de jardinagem. Certa noite, porém, Coraline encontra uma passagem secreta que a leva a uma versão alternativa de seu mundo; um lugar no qual sua Mãe é carinhosa e presente e seu Pai toca piano e a leva para passear numa geringonça voadora. Além disso, até os vizinhos se mostram mais divertidos nesta outra dimensão que passa a ser visitada pela garota com freqüência cada vez maior. É então que sua Outra Mãe explica que, para se mudar definitivamente para aquele mundo, Coraline deverá permitir que um par de botões seja costurado no lugar de seus olhos.



Responsável pelo inesquecível O Estranho Mundo de Jack (que muitos atribuem erroneamente a Tim Burton, que concebeu seu argumento e produziu o projeto), Henry Selick demonstra, aqui, ter mantido sua preferência por narrativas sombrias que, aqui e ali, investem num surpreendente humor negro – embora, a bem da verdade, Coraline e o Mundo Secreto se preocupe bem menos em fazer rir do que aquele longa de 1993. Adotando um ritmo mais calmo ao construir cuidadosamente sua história, o cineasta investe numa atmosfera mergulhada em melancolia que se reflete também na evocativa trilha sonora composta pelo francês Bruno Coulais e na tristeza constante de seus personagens. Aliás, o próprio design de seu “elenco” ilustra sua natureza soturna, desde as profundas olheiras da Mãe até a pele acinzentada e os olhos arroxeados do Pai. Da mesma forma, as ex-vedetes que moram no andar de baixo exibem, em seus físicos corpulentos e acabados, a decadência de suas vidas (e esperem até ver os seios colossais da Srta. Spink), ao passo que o Sr. Bobinsky, por mais que tente se manter em forma, mal consegue ocultar sua barriga proeminente por baixo das roupas sujas e desgastadas. Isto, é claro, serve como contraste das cópias “alternativas” dos personagens, quando a Mãe surge bem mais conservada; o pai, corado; e os corpanzis das ex-vedetes se revelam como meras carcaças que envolvem versões magras e jovens das mulheres.



Realizado através da encantadora técnica do stop-motion, Coraline não traz movimentos tão fluidos como aqueles vistos em A Noiva-Cadáver ou mesmo em A Batalha dos Vegetais: aqui, a animação revela um flickering (“tremor”) bem mais acentuado que, em certos momentos, chega a dar a impressão de câmera lenta – algo que apenas aumenta o charme da produção. Já a montagem investe em transições elegantes que refletem a inventividade da narrativa, como no instante em que a personagem-título encosta a cabeça no chão, perto de um poço, e subitamente é vista dentro de casa, olhando pela janela para a chuva que cai lá fora. Enquanto isso, a fotografia de Pete Kozachik contrapõe a paleta dessaturada, sem vida, do mundo “real” e os tons mais quentes com cores mais fortes do universo concebido pela Outra Mãe. Para finalizar, o design de produção merece elogios não só por sua inventividade, mas também por ajudar a estabelecer um clima de sonhos (ou pesadelo) ao freqüentemente contrastar os amplos espaços internos (o picadeiro de circo, o teatro) com seus exteriores claramente incompatíveis.



Remetendo principalmente a Alice no País das Maravilhas (a heroína tem até sua própria versão do Gato de Cheshire), Coraline e o Mundo Secreto é rico o bastante, do ponto de vista temático, para permitir até mesmo leituras freudianas de sua narrativa, já que o mundo alternativo visitado pela protagonista pode ser facilmente interpretado como uma projeção de seu inconsciente (neste caso, a Outra Mãe seria o superego?). Mas, mesmo que nos limitemos a admirá-lo como uma sombria história para crianças (se bem que todas elas são repletas de simbolismos), o filme de Henry Selick já é suficientemente fascinante para merecer uma forte e inequívoca recomendação.



Observação: Após os créditos finais, há um breve plano que revela um detalhe dos bastidores da produção.



Observação 2 (em 18/02/09): A versão em 3D do longa é envolvente e não abusa dos planos criados apenas para que algo salte da tela, optando, em vez disso, por utilizar os efeitos de maneira orgânica e inteligente.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009


Em Berlim, Padilha exibe 'Garapa' e diz que fome tem solução

Do ESTADO DE SÃO PAULO



Calcula-se que, no Brasil, cerca de 11 milhões de pessoas vivam permanentemente com a falta de alimentos

EFE

BERLIM - O diretor brasileiro José Padilha, que no ano passado ganhou o Urso de Ouro do Festival de Berlim com Tropa de Elite, voltou à mostra com o documentário Garapa, um drama sobre a fome, problema que, segundo o cineasta, pode ser vencido com medidas apropriadas.

Se ainda há fome no mundo é porque assim queremos. Não há nenhuma lei natural que determine que pessoas tenham que passar fome. É um drama que tem solução, disse o diretor à Agência Efe.

Garapa, que tira seu nome de um caldo composto por água e açúcar que milhares de crianças desnutridas do Brasil bebem no lugar do leite, acompanha três famílias do nordeste do país que vivem em zonas rurais pobres ou na periferia de centros urbanos.

Estamos mais comprometidos com os exércitos que com a luta contra a fome, declarou Padilha no festival.

Segundo estudos da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), seriam necessários US$ 30 bilhões ao ano para acabar com a fome no mundo.

Pode parecer um número alto, mas não é se o compararmos com os US$ 1,5 trilhão que são gastos anualmente com a compra de armas, diz Padilha.

O premiado diretor brasileiro entrou em contato com a fome crônica do nordeste brasileiro há cinco anos, por meio de um amigo envolvido com ONGs. Foi então que decidiu denunciar essa tragédia de uma perspectiva mais emocional do que intelectual.

Assim, em Garapa, a câmera acompanha o dia a dia de três famílias numerosas, nas quais o máximo que as crianças das casas podem esperar em dias de sorte é um copo de leite e um prato de arroz com feijão, já que qualquer alimento a mais é considerado um luxo.

Casas minúsculas e em más condições, falta de higiene, desemprego e a aflitiva falta de alimentos e água potável são os elementos compartilhados pelos três núcleos familiares do documentário, situação que se repete em dezenas de países, da China a Rússia, Índia e África, lembrou Padilha em Berlim.

Calcula-se que, no Brasil, cerca de 11 milhões de pessoas vivam permanentemente com a falta de alimentos, numa situação na qual só comem nos dias em que têm algo. No mundo todo, são 920 milhões os que vivem assim, acrescentou.

Diante da falta de dinheiro e de comida, as mães - as grandes lutadoras das famílias, segundo Padilha - recorrem a alimentos altamente calóricos - como o açúcar - para alimentar os filhos, algo que acaba prejudicando a saúde com o tempo.

Garapa começou a ser criado ao mesmo tempo em que Tropa de Elite, mas foi o sucesso de crítica e público do vencedor do Urso de Ouro que garantiu o interesse por este impecável documentário, rodado em preto e branco e que estreou ontem na seção Panorama com a sala abarrotada.

O cineasta contou que intencionalmente buscou deixar de fora do documentário todo artifício que não fosse essencial para contar a história, na qual a miséria é a grande protagonista. Tal enfoque levou-o a rodar em formato óptico, com som ambiente, lentes fixas e sem música.

A equipe de filmagem também se esforçou para manter uma distância profissional das famílias e, assim, conseguir retratar a realidade delas, embora Padilha, num momento do filme, admita que deu analgésicos a uma das crianças.

Comer açúcar o tempo todo acabou provocando-lhe problemas nos dentes. Eles doíam muito. Portanto, no fim dei-lhe algo para a dor, comentou o cineasta, que após o término das filmagens deu ajuda econômica às famílias.

Se você ajuda durante as filmagens, manipula a situação e não consegue mostrar nas condições em que (as pessoas) vivem, acrescentou.

O cineasta também elogiou o programa Fome Zero do Governo Lula, mas disse que em casos extremos, como os que seu documentário retrata, essas ajudas não são suficientes.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

A partir deste semana serão veiculados em salas de cinema de São Paulo e Santos dois comerciais sobre o curso de Cinema Digital da Universidade Metodista.

Estes comerciais foram produzidos e criados pelos alunos do 6º semestre, em 2008, em alta resolução e contam com pós-produção de som em 5.1.

A exibição ocorrerá na rede da Rain Network. É com muito orgulho que comunico este fato absolutamente inédito na história dos cursos de cinema no Brasil - comerciais
criados e produzidos por alunos sendo veiculados em salas de cinema do
circuito comercial.

Na seqüência, no final de janeiro e nos meses subseqüentes a Rain e a MovieMobz iniciarão as exibições dos curtas produzidos pelos alunos do 6º semestre
.



quinta-feira, dezembro 25, 2008

Selton Mello estréia com Feliz Natal


Resenhas dos alunos de Cinema da Metodista do novo (primeiro como diretor) filme do ator.


Existe um deslocamento latente quando chegamos nessa época de fim de ano. As festas, os olhares e o clima nostalgico nos corroem apesar da aparente intensão de esquecimento do passado e dos fatores que nos formaram perante seus amigos e família. Todos se reunem e nos desejam "feliz natal", o sobrinho chato, a tia bêbada, o tio "aproveitador e conquistador", o marido capacho da esposa e o tio deslocado de tudo aquilo. Feliz Natal, longa de estréia do ex-ator Selton Mello é sobre isso, relações pessoais e familiares e suas consequências filtradas por aparências.

Calcado em Lucrecia Martel e John Cassavetes, Selton Mello consegue uma estréia regular, com momentos incríveis de aprofundamento psicológico de seus personagens, e outros momentos visíveis de repetição de linguagem que acabam por irritar sua platéia, comum em filmes de estreiantes. O êxito de Selton em sua obra é de conseguir retirar a densidade exata de seus atores, todos tem seu momento de brilhantismo, como Darlene Glória como o ponto mais vísivel da disfuncionalidade da família com sua vó/mãe/tia/sogra inteiramente acabada e entregue a seus vicios e seu passado, e Lucio Mauro desconstruindo seu personagem típico de humor.

A fotografia de Lula Carvalho consegue com êxito exprimir sua necessidade densa e climática em todos os momentos do filme, mas se torna falha quando repete enquadramentos do perfil do personagem vivido por Leonardo Medeiros em quase todos os seus momentos. Mas é uma fotografia agil, que indica a solidão e sofrimento dos personagens ali mostrado, com hiper-closes e seu alto-contraste.

Fica claro que Selton Mello expõe sua obra com sinceridade e conhecimento, mas existem ainda falhas comuns a diretores que estão começando sua carreira. No caso de Selton esses erros não atrapalham inteiramente o andamento do filme e ele consegue nos deixar interessado pela sua história, apesar das poucas respostas e resoluções apresentadas. É de se esperar novos filmes desse ex-ator e agora realizador e contador de histórias.


Kauê Klomfahs Marin Maria



Feliz Natal e Próspero Cinema Novo

O ator Selton Mello estreia como diretor com um longa-metragem que de feliz só tem o nome. Com o irônico título “Feliz Natal” , o filme de Selton visa abordar questões familiares através do conflito causado pela visita de Caio á sua família após anos de separação. Caio retorna na noite de Natal em busca de reconciliação e em uma tentativa de entrar em termos com seu passado , devastado por uma desmedida somente revelada no clímax. Leitores mais atentos ficarão empolgados com essa sinopse, talvez o próprio Aristóteles ficasse, porém o resultado final é: muito movimento e pouca catarse.
O problema maior talvez esteja no roteiro, não em sua estrutura de desenvolvimento, mas na construção dos personagens. Há poucos elementos indicativos em relação a sua personalidade, seu passado, suas ambições ou verdadeiras opiniões. Os personagens verbalizam intenções mas agem de maneira aleatória e sem propósito. Me pergunto por exemplo, qual foi a relevância da cena em que Graziela Moretto se observa nua no espelho , ou da conversa na beira da piscina.Há também passagem em que o amigo de Caio é baleado, sua única função seria promover a reconciliação dos irmãos após uma recente ruptura, mas no entanto nada acontece, temos mais um evento em que a dramaticidade se baseia quase que exclusivamente no fato de haver um personagem supostamente carismático em uma situação de proximidade com a morte.

Outro indicativo de falta de elaboração dos personagens é o constante uso de super-closes. Talvez tenha sido um experimentalismo excêntrico de um jovem diretor ávido em mostrar serviço, entretanto,fica no ar a sensação de um certo desespero em relação à tentativa de se criar intimidade com os personagens. Como se proximidade física suprisse sua má construção.A edição também deixa muito a desejar e a super utilização de inserts dá ao filme um ar de amadorismo pretensioso.

Todavia Selton conseguiu extrair atuações maravilhosas ,não só de Darlene Glória e do menino Fabrício Reis, como de todo o elenco. E o violão muito bem tocado da trilha sonora (as vezes mal utilizada)do talentoso produtor musical Plínio Poeta ,além de suprir falhas na estrutura, contribuiu de maneira decisiva na passagem para o último ato.

Apesar de Feliz Natal pretender acertar como Altman mas somente repetir os erros de Vincent Gallo, é um filme denso e ousado, sem espaço para trivialidades e com grandes atuações. É o cartão de visitas de um diretor que, apesar dos equívocos , trás algo antes nunca visto e demonstra uma característica que é sempre bem vinda em qualquer campo artístico :inquietação.

Celso Cunha

O filme de Selton Mello não conseguiu cumprir suas pretensões. Apesar das boas atuações, a trama, que parece sugerir um caminho interessante, se mostra confusa, pois não há aprofundamentos nas motivações e nos destinos dos personagens.

A trama começa a partir do momento em que Caio, que é dono de um ferro-velho no interior do Rio de Janeiro decide ir até à capital para passar o Natal com a família que não vê há anos. Mas esse seu retorno provoca reações das mais adversas possíveis por conta de um erro que cometeu no passado, e ele vê que sua família não está tão bem assim: o casamento do irmão não está bem, o pai desconta suas frustrações em sexo irregrado com mulheres bem mais novas e demonstra ao filho que não conseguiu perdoá-lo, a mãe desconta a suas com bebidas e a cunhada, que se mostra mais compreensiva, vai se mostrando, também, muito confusa em relação a si mesma ao longo da história.

Caio relembra o seu passado mais feliz, dando um tom de nostalgia e arrependimento ao filme. Entretanto, o que poderia se tornar uma narrativa rica, reflexiva, cheia de conflitos a serem explorados, se mostra superficial, dando a entender que ela é apenas um pretexto para Selton Mello fazer experimentos como diretor.

Marco Marão



quinta-feira, novembro 06, 2008

Antonio Banderas vai interpretar Salvador Dalí no cinema

“Dalí” vai misturar animação 3D e atores de verdade.
Outras duas cinebiografias do pintor espanhol estão em produção.

O ator espanhol Antonio Banderas está negociando com os produtores do filme “Dalí” para interpretar o papel do pintor surrealista nas telas, diz o site da revista “Variety”. O filme será dirigido por Simon Wast (“Tomb raider”, “Con air”), e concentra-se nos anos em que Salvador Dali morou nos EUA, fugindo da Segunda Guerra Mundial, e especialmente na usa relação com a esposa Gala, musa e empresária do artista.

“Dalí” terá cenas em animação 3D, além da ação com atores reais, procurando integrar ao filme a imaginação surreal do pintor espanhol. O filme deve começar a ser rodado no primeiro trimestre de 2009, na Inglaterra e na Espanha.

Duas outras cinebiografias sobre Salvador Dali estão em produção. “Dalí & I: The surreal story” (“Dalí & eu: a história surreal”) será estrelado por Al Pacino, com direção de Andrew Niccol (“O senhor das armas”, “Gattaca”), enquanto “Little ashes” ("Pequenas cinzas") traz Robert Pattinson (o Cedric Diggory de “Harry Potter”) no papel do jovem Dalí, mostrando sua relação com artistas como o cineasta Luis Buñuel e o escritor Frederico García-Lorca.

O ator espanhol Antonio Banderas está negociando com os produtores do filme “Dalí” para interpretar o papel do pintor surrealista nas telas, diz o site da revista “Variety”. O filme será dirigido por Simon Wast (“Tomb raider”, “Con air”), e concentra-se nos anos em que Salvador Dali morou nos EUA, fugindo da Segunda Guerra Mundial, e especialmente na usa relação com a esposa Gala, musa e empresária do artista.

“Dalí” terá cenas em animação 3D, além da ação com atores reais, procurando integrar ao filme a imaginação surreal do pintor espanhol. O filme deve começar a ser rodado no primeiro trimestre de 2009, na Inglaterra e na Espanha.

Duas outras cinebiografias sobre Salvador Dali estão em produção. “Dalí & I: The surreal story” (“Dalí & eu: a história surreal”) será estrelado por Al Pacino, com direção de Andrew Niccol (“O senhor das armas”, “Gattaca”), enquanto “Little ashes” ("Pequenas cinzas") traz Robert Pattinson (o Cedric Diggory de “Harry Potter”) no papel do jovem Dalí, mostrando sua relação com artistas como o cineasta Luis Buñuel e o escritor Frederico García-Lorca.