domingo, abril 13, 2008

Reencontro com Nelson

Antunes Filho volta ao dramaturgo com "Senhora dos Afogados", peça que considera uma "tragédia da esterilidade"

Fernando Donasci/Folha Imagem
Ensaio de 'Senhora dos Afogados' com direção de Antunes Filho


VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Nos anos 90 ou nesta década, era comum deparar com Antunes Filho ensaiando ou dirigindo tragédias gregas. Fincou pé na possibilidade de um ator brasileiro capaz de trazer à luz Eurípides ou Sófocles sem os estereótipos da representação do gênero, a começar pela voz.
Ao retornar agora a Nelson Rodrigues (1912-1980), quase 20 anos depois, ele monta um dos mais potencialmente trágicos textos da dramaturgia nacional, "Senhora dos Afogados", lançada em 1947.
"Aqui, a tragédia grega pode até ser um antimodelo para mim: acho que encontrei o equilíbrio entre um drama que às vezes beira o trágico, mas se permite as estocadas de humor.
O Nelson Rodrigues tem um pouco o espírito de porco, ele vai e cutuca, mas, se bobear, vira dramalhão", diz o diretor do Centro de Pesquisa Teatral, que fica no Sesc Consolação, em São Paulo. É no teatro anexo àquele prédio, o Sesc Anchieta, que o CPT e o grupo Macunaíma estréiam amanhã um dos espetáculos mais aguardados do ano. Antunes, 78, está entre os criadores que ajudaram a desconstruir as convenções pornográficas ou melodramáticas em torno da obra do autor, principalmente no período dos anos 80. Já assinou cinco espetáculos, de 1965 a 1989, incluindo adaptações.
Apesar da bagagem, diz que encontrou mais dificuldades para "navegar" no seu novo Nelson -metáfora pertinente à sedução das águas na peça, "mar que não devolve os corpos e onde os mortos não bóiam", como diz uma das personagens.

Pai e filha
Dificuldades não só estéticas, mas conceituais. Fica entusiasmado ao partilhar lampejo que experimentou no processo com a equipe de "Senhora dos Afogados". "É a tragédia da esterilidade", afirma.
Ou seja, o percurso da mulher que assassina as irmãs pela ambição de ser a filha única -e mulher de seu pai, já que empurra o próprio noivo para a mãe, que também morre- tem como desfecho a impotência.
Misael, o pai, morre no colo de Moema, a filha. Ela evita acariciar o corpo. "As mãos dela não têm mais utilidade. Matou tudo e todos para ter e não teve, não conseguiu, falhou", diz Antunes.
Segundo ele, essa atmosfera lembra o espanhol Federico García Lorca em "Yerma", que dirigiu em 1962, no TBC. "Ao contrários das personagens gregas, em "Senhora dos Afogados" não há a dimensão do sofrimento perpétuo. Morreu, acabou. É mixo, é brasileiro. É a tragédia brasileira."
Essa dimensão também alcança o coro de vizinhos que testemunha e, às vezes, interage com os sofrimentos da família Drummond no casarão à beira-mar. Do cais, ouvem-se o lamento e a reza das prostitutas. Ao inconsciente coletivo (Jung) com o qual lida há tempos, o diretor conjuga o inconsciente estruturalista (Lacan) em busca do que acredita síntese tupiniquim dessas "figuras espectrais".

"Viração"
"Os personagens do coro são capachos, o brasileiro sufocado pela sociedade patriarcal, hipócrita. O coro não tem a nobreza, ele está se virando, não teve vez. É o pessoal da "viração", que desabafa contando piadas, tirando um sarro do sapato do outro ou quebrando um telefone público quando ninguém está vendo", ilustra o diretor.
"Os vizinhos e as mulheres do cais são versões modernas das Erínias, deusas da vingança e do castigo, que nas tragédias gregas atormentavam os protagonistas. Mas são versões degradadas, que nada têm de sobrenatural", diz a pesquisadora Leyla Perrone-Moisés no programa da peça.
O projeto artístico de Antunes quer falar de civilização brasileira. "Não adianta melhorarmos o nível econômico se não tivermos um nível cultural bom. Vira pão e circo", afirma.
"Estou com o saco cheio de ter Pelés. Não pode ter um ali, outro lá, tem que ser todos, tem que dar uma assistência social e uma assistência cultural a todos", diz.
Como artista, ele se diz "sufocado, desesperado com a sociedade de consumo". E a ação social que Antunes diz almejar, a partir do que constata, é por meio da arte. Ainda neste ano, gostaria de ministrar o curso "O Olho do Espectador", dois dias de encontro, com três horas cada um, no qual falaria aos participantes sobre o trabalho do ator e do encenador, para início de conversa. "O diretor massacra a platéia.
Eu já massacrei, com imagens, com sons, os atores gritando. Isso anestesia o público. Queria mostrar o que é um ator bom, o que é um ator estereotipado."


SENHORA DOS AFOGADOS
Quando:
estréia amanhã; sex. e sáb., às 21h, e dom., às 19h; até 27/7
Onde: teatro Sesc Anchieta (r. Dr. Vila Nova, 245, tel. 0/xx/11/3234-3000)
Quanto: R$ 5 a R$ 20

Um comentário:

João Bourbonnais disse...

INDICADO AO PRÊMIO CONTIGO DE MELHOR ESPETÁCULO MUSICAL NACIONAL.


ÚLTIMOS DIAS NO TEATRO ARTHUR AZEVEDO!



O Núcleo Experimental da Cooperativa Paulista de Teatro apresenta o espetáculo musical SENHORA DOS AFOGADOS, de Nelson Rodrigues. Em sua quinta temporada, o espetáculo dirigido por Zé Henrique de Paula e realizado pela produtora Firma de Teatro ficará em cartaz até o dia 25 de setembro/2008 no Teatro Arthur Azevedo, no bairro da Mooca em São Paulo. Contamos com a sua presença!



TEATRO ARTHUR AZEVEDO
(Av. Paes de Barros, nº 955 - Mooca)
Informações: 11 2605 8007
Entrada: R$ 15,00 (inteira) / R$ 7,50 (meia)
De 06/08/08 à 25/09/08
Somente as quartas e quintas às 21h00.




'...revelar o impulso que move cada um dos personagens e as conseqüências desse comportamento - se faz presente com bastante êxito na montagem e contribui para a empatia do público e para a compreensão dessa peça que não está entre as mais fáceis do autor. O resultado é uma linha de interpretação que não é nem 'natural', nem caricata, construída no difícil equilíbrio entre contenção e densidade. Seca, sem tons melodramáticos, com marcações precisas e não cotidianas, a encenação lança seu foco no patamar trágico, o mais relevante nas ditas peças míticas de Nelson Rodrigues.'

Beth Néspoli - Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO.


'Também responsável pelo surpreendente Mojo, o diretor Zé Henrique de Paula reafirma seu talento ao transformar a tragédia escrita em 1947 em um musical. A história está intacta e traz a
densidade característica do universo do dramaturgo.' '... o bom elenco garante a tensão dramática.'

Dirceu Alves Jr. - REVISTA VEJA SÃO PAULO.




SENHORA DOS AFOGADOS de Nelson Rodrigues

Com

Einat Falbel - D. EDUARDA
João Bourbonnais - MISAEL
Lourdes Gigliotti - AVÓ
Marcela Piccin - MOEMA
Marcelo Góes - NOIVO
Thiago Carreira - PAULO
Alexandre Meirelles - SABIÁ
Elber Marques - VENDEDOR DE PENTES

VIZINHOS
Diana Troper
Fábio Redkowicz
Paulo Bueno
Thiago Ledier

MULHERES DO CAIS
Bárbara Bonnie
Bibi Piragibe
Carol Fioratti
Cláudia Miranda
Ci Teixeira
Karin Ogazon
Kelly Klein
Maíra Gomes
Patrícia Vieira

DIREÇÃO - Zé Henrique de Paula
DIREÇÃO MUSICAL - Fernanda Maia

(Piano - Fernanda Maia / Violoncelo - Kalyne Valente)
ASSIST DE DIREÇÃO - Fabrício Pietro
PREPARAÇÃO DE ATORES - Inês Aranha
ILUMINAÇÃO – Fran Barros
OPERAÇÃO DE LUZ – Karina Camillo
FOTOS – Guto Marques e Roberto Mourão
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO – Cláudia Miranda
FIGURINOS - Zé Henrique de Paula
REALIZAÇÃO – Firma de Teatro



veja vídeo da peça em:
http://www.youtube.com/watch?v=capEf439dio

saiba mais visitando:
http://bocadecenacomunicacao.com.br/senhora/index.html

http://joaobourbonnais.blig.ig.com.br/