domingo, maio 24, 2009

TV além da tela

TV em três dimensões deve se tornar realidade no Brasil antes da Copa de 2014

TV Globo/Divulgação

A captação de imagens é feita com duas câmeras presas uma a outra, como as da Globo, acima; a câmera esquerda filma o que o nosso olho esquerdo vê; a direita filma a imagem que vemos com o olho direito


DANIEL CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

Na TV do futuro, animais, mocinhos e vilões de novelas, jogadores de futebol e carros em alta velocidade saltam da tela e invadem a sala de estar da sua casa. Essa (falsa) realidade não tardará. A TV em 3D (três dimensões) deve estar entre nós antes da Copa de 2014.
No Brasil, a Globo (e, por enquanto, só ela) já faz incursões no mundo do 3D. A rede captou imagens tridimensionais do Carnaval carioca, para exibições fechadas. Em breve, repetirá a experiência com novelas.
Uma dessas projeções do Carnaval em 3D ocorreu, no final de abril, em uma feira de TV em Las Vegas, nos EUA. "A demonstração mais impressionante veio do Brasil, com gravações trazidas pela TV Globo. Foi espetacular", escreveu em seu blog a colunista Anne Thompson, da revista americana "Variety". Na feira, a NAB-2009, monitores de 3D foram a grande sensação.
Diretor de multimídia e de projetos especiais da Globo, o engenheiro José Dias calcula que em três anos já será possível fazer transmissões em 3D via cabo (TV paga) e pelo ar (TV aberta), usando o sistema de TV digital lançado em dezembro de 2007. O telespectador precisará ter um televisor que projete em 3D e de óculos especiais. Ambos já existem no mercado, inclusive brasileiro.
O grande "barato" da TV 3D é a sensação que ela provoca. Ela proporciona uma imagem que se aproxima da captada pelo olhar humano, mas não é real. "A tela do televisor 3D não é uma tela, é uma janela que projeta imagens para a frente e para trás. Isso muda a forma de contar a história", afirma Dias.
Nas imagens captadas pela Globo, uma moreia de um carro alegórico produziu o efeito de que saía da tela e, ondulando, se aproximava do espectador, enquanto o sambódromo permanecia fixo, ao fundo. A emissora também inseriu um merchandising em que uma lata de cerveja saía do fundo da tela e chegava ao alcance das mãos do telespectador. "Isso é tudo o que o anunciante quer. O 3D vai revolucionar o merchandising", aposta o diretor da Globo.
Pela sua capacidade de atrair o telespectador, a TV em 3D está sendo vista como a "salvação" da televisão, cada vez mais perdendo público, principalmente o jovem, para novas mídias. No Brasil, o 3D pode ser uma forma de alavancar a própria TV digital, que ainda não decolou, uma vez que a alta definição oferece imagem melhor, mas sem tanto impacto.

Impulso do cinema
Segundo Dias, da Globo, será possível transmitir um sinal de alta definição e um sinal de 3D usando um mesmo canal de TV digital. Do ponto de vista técnico, será uma mudança menos radical do que a da migração da TV analógica para a digital.
Foi a tecnologia digital que impulsionou a produção em 3D. A projeção tridimensional foi descoberta no século 18. Nos anos 50, foi usada pelo cinema justamente para competir com a emergente televisão.
Nesta década, graças ao digital, o cinema redescobriu o 3D. O número de lançamentos na nova tecnologia saltou de um filme ("O Galinho Chicken Little") em 2005 para 16 neste ano (projeção). Depois de "Monstros vs. Alienígenas", o novo "Era do Gelo" e "Avatar" (este, com atores de verdade, dirigidos por James Cameron, de "Titanic") são as grandes promessas de bilheteria em 3D.
No Brasil, o número de salas de exibição com a tecnologia cresce a cada final de semana. Eram 34 no começo de março. Chegaram a 51 no final de abril. Devem passar de cem no final do ano, estima o portal Filme B, que monitora o mercado cinematográfico brasileiro. "Para o cinema, o 3D é a tecnologia do presente", diz Paulo Sérgio Almeida, do Filme B.
Um novo grande salto deve ocorrer até o final deste ano, quando entidades americanas definirão um padrão de distribuição de 3D digital. Isso permitirá o lançamento de DVDs de filmes em 3D para tocadores de Blu-ray, o que estimulará o consumidor a comprar televisores e óculos 3D, abrindo caminho para a produção e transmissão de programas de TV na nova tecnologia.
Outra tendência é a transformação de filmes e programas originais em 2D para 3D. A Globo já estuda fazer isso.
Por fim, um esclarecimento: o 3D, como toda TV, deve ser visto com moderação, mas não faz mal à saúde. "O 3D é uma ilusão, uma sensação, simulação. Não existe nenhum estudo comprovando que causa estresse, dano ou irritação ocular", diz Paulo Augusto de Arruda Mello, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia.

Televisores já existem, mas falta conteúdo

COLUNISTA DA FOLHA

Televisores que projetam 3D já são vendidos no mundo todo, inclusive no Brasil. Nos Estados Unidos, deverão ser vendidas 2 milhões de unidades desses aparelhos até o final do ano.
No Brasil, nenhum fabricante admite que vende televisor 3D. Alguns dizem que oferecem apenas monitores, e somente para o mercado corporativo.
Mas a Samsung tem dois aparelhos (o PL50A450 e o PL42A450) que estão prontos para a nova tecnologia. São os "3D ready". Na semana passada, o PL50A450, de 50 polegadas e tela de plasma, mas sem alta definição, era vendido por R$ 2.799 na internet.
Todos os "3D ready" também servem para assistir à TV convencional (2D).
Para tirar proveito do recurso 3D desses aparelhos, o telespectador tem de comprar óculos especiais e conectá-los a microcomputadores com placa de vídeo da Nvidia -a empresa deve lançar em breve um kit com óculos para 3D. O grande problema é conseguir conteúdo em 3D, ainda muito restrito. "O pessoal do game está usando essas TVs", diz José Dias, engenheiro da Globo.
Os fabricantes não anunciam que vendem televisores para 3D para evitar problemas com consumidores, por causa da falta de conteúdo.
No exterior, televisores mais sofisticados custam US$ 6 mil (R$ 12 mil). Um modelo da Hyundai tem um conversor que transforma TV 2D em 3D.

Crítica/"Cassy Jones - O Magnífico Sedutor





DVDs



Em seu último longa, Person faz paródia da pornochanchada

Comédia erótica inconsequente tem sequências memoráveis de humor surreal

JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA

Luiz Sergio Person (1936-1976) inscreveu seu nome na história do cinema brasileiro com dois filmes seriíssimos, "São Paulo S/A" (1965) e "O Caso dos Irmãos Naves" (1967), mas seu último longa, "Cassy Jones - O Magnífico Sedutor" (1972), é uma comédia erótica absurda.
Paulo José, no papel-título, é o conquistador irresistível, por quem todas as mulheres do Rio se apaixonam. O assédio chega a aborrecer o herói, que entra em crise e se vê ameaçado pela impotência, antes de conhecer uma linda moça órfã (Sandra Bréa, num de seus primeiros papéis) tiranizada pela governanta (Glauce Rocha, em seu último filme). Aí é ele que se apaixona.
Esse fio de enredo é mero pretexto para uma sucessão de sequências mais ou menos disparatadas, animadas por um humor excêntrico, surreal, que homenageia o teatro de revista, a chanchada, o tropicalismo e a jovem guarda. (Não por acaso, Person preparou pouco antes um filme com Roberto Carlos, que não se concretizou.)
Algumas dessas sequências são memoráveis, como a do pesadelo em que Cassy Jones se vê como juiz de futebol, xingado de "bicha" pelo Maracanã lotado, ou a de seu disfarce de professor francês de balé para invadir o reduto da donzela cobiçada. Há passagens de puro pastelão, com recursos um tanto fáceis de cinema mudo: movimento acelerado, perseguições à la Keystone Cops, trombadas e tropeções.
Mesmo nos momentos menos inspirados, é perceptível a alegria com que Person parodia a então florescente pornochanchada, gênero já paródico por excelência, misturando referências a outras linhagens do cinema, bem como à TV, à publicidade e à música popular.

Crítica social
Deliciosamente inconsequente, o filme não tem compromisso algum com a verossimilhança. A crítica a um país deslumbrado com o consumo e a modernidade (o Brasil do "milagre") se dá pela exacerbação cenográfica, pela extravagância dos figurinos e das cores, pela montagem frenética, pela ironia geral da mise-en-scène.
As músicas, a começar pela contagiante canção-título, são de Carlos Imperial, que aparece numa cena de programa de auditório.
Agora que as comédias de costumes voltam a fazer sucesso (vide "Se eu Fosse Você 2" e "Divã"), nada melhor do que cotejá-las com um exemplar saído de outro tempo, de outro cinema, de outro Brasil.


CASSY JONES - O MAGNÍFICO SEDUTOR

Lançamento: Videofilmes
Quanto: R$ 45, em média
Classificação: não indicado a menores de 16 anos
Avaliação: bom

EXTRAS TÊM CURTA FEITO EM ROMA

No início dos anos 60, Person estudou no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Os extras do DVD incluem seu curta "O Otimista Sorridente", realizado durante o curso. Sem diálogos, o filme, em preto-e-branco, mostra um jovem que perambula pelas ruas contagiando as pessoas com música, poesia e dança.

DVD/Folha



"Rastros de Ódio", de John Ford, é o próximo DVD da Coleção Folha

Protagonizado por John Wayne, filme é considerado obra-prima de Ford

DA REPORTAGEM LOCAL

John Ford era famoso por seu mau humor e extrema objetividade (para não dizer secura) na hora de dar entrevistas. Recusava o rótulo de grande artista e definia-se assim: "Meu nome é John Ford e faço westerns". Mas é difícil negar que tenha sido um dos artistas mais influentes do século passado, afinal seus filmes correram o mundo e ajudaram a criar toda uma mitologia da América.
Próximo volume da Coleção Folha Clássicos do Cinema (nas bancas em 31/5), "Rastros de Ódio", de 1956, é considerado o melhor filme de Ford. Isolado, o filme se sustenta perfeitamente como obra-prima, mas ganha sentido especial à luz da evolução de sua parceria com John Wayne, o mais constante ator de seus westerns.
Como bem observa Martin Scorsese em seu documentário sobre cinema americano ("Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano"), o western atinge uma complexidade ímpar em "Rastros de Ódio" graças, em grande parte, à riqueza do personagem de Wayne, Ethan Hunt.
O filme se passa no Texas, em 1868. Quando começa, Hunt volta à casa do irmão Aaron (Walter Coy). Sabemos que ele foi lutar na Guerra da Secessão, mas ele só reaparece três anos depois do fim da guerra, e não fica claro por onde andou. Hunt volta amargo e racista como nunca. Odeia os índios a ponto de rejeitar frontalmente Martin Pawley (Jeffrey Hunter), jovem mestiço que protegeu quando criança e entregou para seu irmão criar como um filho.
Depois que um grupo comanche mata seu irmão e sua nora e rapta as sobrinhas Lucy e Debbie, Ethan se junta a Martin para uma busca que vai durar cerca de sete anos.
A tradição narrativa do cinema americano e a grande capacidade de composição visual de Ford unem-se à perfeição neste filme. No livro que acompanha o DVD neste volume da coleção, há trechos da rica fortuna crítica em torno de John Ford, além de ensaio do crítico da Folha Inácio Araujo.
Como observa Araujo, "Rastros de Ódio" começa com uma porta que se abre e termina com a mesma porta se fechando -entre esses dois momentos, acompanhamos a aventura de um anti-herói. "Mas podemos tentar ver as coisas por outro ângulo: a porta que se abre, no início, ou que se fecha, no final, são objetos por onde a luz passa ou não, dividindo a tela em vastas regiões de claridade e sombra. (...) No final, o fechamento da porta nos lembra de que a grande epopeia acabou. A tristeza fica para nós, espectadores (único consolo: poder voltar a ver o filme)".