sexta-feira, abril 10, 2009


Revista SET é cancelada, mas ainda há esperança de retorno

Do site CINEMA EM CENA


02/04/2009

Apesar ter sido anunciado o cancelamento da Revista SET, ainda existe a possibilidade da publicação voltar às bancas. É o que diz Roberto Sadovski, diretor de redação da revista, com exclusividade ao Cinema em Cena.

Sadovski enviou um e-mail ao site Omelete e revelou que a Editora Peixes não vai mais publicar esta que é uma das maiores revistas de entretenimento do Brasil. Porém, segundo o próprio, o fim pode não ser permanente, já que ele acredita que ainda há esperanças de que outra editora passe a publicá-la.

Com Mickey Rourke na capa, a primeira edição da revista saiu em julho de 1987 e se tornou referência entre as publicações impressas brasileiras. Em uma época em que a Internet ainda não foi popularizada e as notícias não tinham a rapidez de hoje, ela se tornou uma publicação obrigatória para os apaixonados por cinema. Ainda nos dias atuais, vários colaboradores da SET traziam informações direto de Hollywood.

A SET foi o resultado do objetivo da Editora Abril de produzir publicações destinadas a segmentos específicos. De 1987 a 1998, a revista foi publicada pela editora Azul, uma filial da Abril, nos seus primeiros onze anos de vida e pela própria Abril em 1998. A partir de 1999, a SET passou a ser um produto da editora Peixes. Segundo a fonte, a revista já quase foi cancelada, mas conseguiu dar a volta por cima. Porém, a Peixes "está, aparentemente, saindo do mercado", e o cancelamento é, agora, inevitável.

SET reuniu grandes nomes do jornalismo brasileiro como Alfredo Sternheim, Sérgio Rizzo, Suzana Uchôa Itiberê, Dulce Damasceno de Brito e outros.

Segundo o e-mail de Sadovski ao Omelete, a edição de abril estava pronta, mas não será distribuída nas bancas e aos assinantes.

Clique aqui para ler o comentário de Pablo Villaça, editor do Cinema em Cena e colaborador de SET no quadro Ponto Crítico, sobre o cancelamento da revista.

Sesc promove festival com os melhores filmes de 2008

Mostra reúne títulos eleitos por críticos e pelo público.
Ingressos custam R$ 8; é possível comprar pacotes promocionais.

Do G1

Começa nesta quinta-feira (9) o “Festival Sesc Melhores Filmes”, que reúne os melhores filmes do ano passado em uma mostra que vai até 30 de abril. A seleção foi feita por críticos e também pelo voto do público, somando um total de 54 longas-metragens.

Na programação estão filmes nacionais e estrangeiros que ganharam destaque e fizeram sucesso no ano passado, como “Vicky Cristina Barcelona”, de Woody Allen (veja o trailer ao lado); “Juno”, de Jason Reitman; “Batman – O cavaleiro das trevas”, de Christopher Nolan; a animação “Wall-e”, “Onde os fracos não têm vez”, dos irmãos Coen; “O caçador de pipas”, de Marc Forster.

Entre os nacionais estão “Os desafinados”, de Walter Lima Jr.; “Linha de passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas; “Encarnação do demônio”, de José Mojica Marins.

Ótima chance para colocar o repertório em dia, o festival ainda traz preços mais acessíveis. A entrada individual custa R$ 8 e há também pacotes promocionais – o passaporte para ver 15 filmes custa R$ 80.

Confira a programação completa no site do Sesc.

Festival Sesc Melhores Filmes
De 9 a 30 de abril.
No CineSesc-São Paulo (Rua Augusta, 2.075, Cerqueira César)
Tel.: (11) 3087-0500.

Ingressos: R$ 8 (inteira), R$ 4 (estudante, aposentado/idoso, professor da rede pública e usuário inscrito) e R$ 2 (trabalhador do comércio e serviços, matriculado).

Passaporte 15 filmes: R$ 80 (inteira), R$ 40 (estudante, aposentado/idoso, professor da rede pública e usuário inscrito) e R$ 20 (trabalhador do comércio e serviços, matriculado).

quinta-feira, abril 09, 2009

Rastros de Ódio - John Ford


Quando se assiste os clássicos western de John Ford, é impossível evitar considerar as relações que existem entre seus filmes e um certo espírito estadunidense, sobretudo quando, além de contextualizar historicamente o roteiro, identifica-se o filme dentro da própria filmografia do cineasta. “Rastros de Ódio” (The Searchers, 1956) narra a incansável busca de dois homens por uma garota sequestrada por uma bárbara comunidade indígena. Ethan Edwards (John Wayne), um veterano do exército confederado -que, portanto, lutou na guerra de independência mas ainda não houve a guerra de secessão-, retorna após muitos anos à casa de seu irmão na região sudoeste dos Estados Unidos. Edwards apresenta duas características importantes: Um inegável preconceito racial em relação à população indígena e, depois da guerra, tornou-se um homem nômade.

Seu conservador preconceito é, certamente, um dos elementos narrativos mais importantes da história uma vez que, ao decidir resgatar sua sobrinha sequestrada pelo Comanche conhecido como “Cicatriz” (ou “Scar”) vê-se obrigado a conviver com Martin Pawley, filho adotivo de seu irmão que é um mestiço. A grande questão que passa então a permear este personagem diz respeito ao dilema relativo à atitude a ser tomada quando a comunidade Comanche for, finalmente, localizada. A destruição da aldeia e dos indígenas belicosos é uma consequência certa. Mas o que fazer com sua sobrinha que, sendo educada pelos índios, teria também ela se tornada um ser bárbaro e incivilizado? O debate sobre o preconceito se estabelece aí de uma forma madura e sutil, uma vez que apresenta os dois lados da situação: a civilizada que tornou-se índia e o indígena que civilizou-se.

De certa forma, o próprio personagem de Ethan Edwards, tendo tornado-se um homem nômade, se aproxime em essência mais duma cultura indígena que da cultura de seus iguais, de forma que suas atitudes muitas vezes refletem seus próprios preconceitos. Numa das primeiras cenas do filme, quando Ethan e um grupo de “rangers” saem pelo solo árido daquela região em busca de algumas vacas roubadas pelos indígenas e, então descobrem que tudo fora uma cilada para afasta-los de suas casas que estariam, neste momento, sendo saqueadas, Ethan não se deixa levar pelo lado passional. Espera, alimenta seu cavalo e da-lhe descanso pois sabe o que os sedentários agricultores desacostumados a distanciar-se de seus lares ignoram: os cavalos, já cansados, não resistiriam ao retorno sem descanso. Ele sabe que não há o que fazer. Assim como os indígenas que ele acusa de serem capazes de montar cavalos mortos e ainda percorrerem uma longa distância com eles, Ethan conhece as limitações de sua montaria.

Ele é também o único personagem que conhece os dialetos dos nativos e, por conhecer as técnicas de sobrevivência destes, parece o único homem apto a seguir com a busca de resgate.
Pawley, por sua vez, aculturado lhe acompanha na busca mesmo tendo motivos a permanecer: Não pertence ao deserto -certamente não é um nômade em essência- e possui um dilema afetivo que lhe prende à terra. Mas ele também continua acompanhando Ethan, não por acreditar ser ele um diferencial na busca por sua irmã mas, antes, pela imprevisibilidade de seu companheiro. Ethan, como um nativo, não pode ser compreendido como um ser previsível. Martin não sabe se deve temer ou agradecer que ele encontre a pobre garota. Em uma das cenas, o veterano chega a tentar mata-la por encontra-la “desumanizada pelos índios”.

“Rastros de Ódio”, mesmo ainda permeado de muitos dos preconceitos em relação aos povos ameríndios herdados dos tempos da expansão ao oeste, mostra o início de uma releitura dos dogmas que fundamentaram o imaginário estadunidense. Aos poucos, nos filmes de Ford, podemos perceber que no sentimento do chamado destino manifesto não apenas o branco anglo-saxão formatam o povo compreendido como escolhido e constituinte da nação americana. O índio e o negro começam a ser compreendidos como parte integrante do todo que fazem dos Estados Unidos um grande país. Isto se evidencia gradualmente em seus filmes, atingindo seu ápice talvez daí a seis anos em “O Homem que matou facínora” (The Man Who Shot Liberty Valance, 1962). As mulheres, igualmente, são dotadas de crescente importância. Em “Rastros de Ódio”, aludindo a uma característica da época, apenas as mulheres sabem ler. Assim, Ford mostra de forma sutil o importante delas na educação das crianças.

Mais que um relato histórico ou um debate dos temas antropológicos de civilização e barbárie, “Rastros de Ódio” é um filme empolgante e de narrativa extremamente bem formatada. Uma das principais obras-primas deste grande mestre que é John Ford.

[Por Eduardo Liron]

quarta-feira, abril 08, 2009

Cidadão Boilesen


Política dá o tom no É Tudo Verdade

No ano da mudança, os júris sacralizaram o engajamento, premiando o poderoso Cidadão Boilesen e VJs de Mianmar

Luiz Carlos Merten

Chaim Litewski colocou toda ênfase na palavra - ditadura, e ele acentuou o ?dura?, talvez para reforçar a ideia, ultimamente colocada em circulação, de que o regime militar instalado no Brasil, em 1964, teria sido uma ?ditabranda?. Litewski estava eufórico, sábado à noite, no CineSesc, ao receber a placa atribuída a seu longa Cidadão Boilesen como melhor documentário brasileiro do 14º É Tudo Verdade. O júri que avaliou os concorrentes da competição brasileira do festival de documentários outorgou mais dois prêmios - uma menção honrosa para Corumbiara, de Vincent Carelli, e o prêmio de melhor curta para No Tempo de Miltinho, de André Weller.

Leon Cakoff, o Sr. Mostra de Cinema, integrou o júri que considerou VJs de Mianmar - Notícias de Um País Fechado, do dinamarquês Anders Hogsbro Ostergaard, o melhor documentário da etapa internacional. A premiação foi bem recebida pelo público que lotava a sala da Rua Augusta. Criador do É Tudo Verdade, Amir Labaki comemorava o que chama de ?lado A? do festival em 2009. Em entrevista ao Estado, ele havia dito que há tempos sonhava com uma divisão do É Tudo Verdade para permitir que os filmes pudessem ser vistos por um maior número de espectadores. A decisão ocorre num momento de crise - e recuo de patrocínios - e o próprio Labaki admite que seu orçamento foi comprometido. Ele vai agora a campo, atrás de dinheiro, para mostrar, no segundo semestre, o ?lado B?, formado pelas seções informativas do documentário brasileiro, latino e internacional que o público prestigia há tantos anos. Anteontem, de qualquer maneira, Labaki tinha o que comemorar. Se o objetivo era mostrar os filmes para mais gente, foi plenamente alcançado. A média de frequência dos filmes da competição saltou de 240, em média, por filme, em 2008, para 370, um aumento de mais de 50%.

Único grande festival brasileiro que ocorre em duas grandes capitais, São Paulo e Rio, e tem ingressos gratuitos, É Tudo Verdade celebrou este ano a 9ª Conferência Internacional do Documentário, que contou com a participação do israelense Avi Mograbi, o grande homenageado de 2009. É curioso que Labaki tenha colocado a programação deste ano sob o signo da transição. A própria conferência debateu o documentário engajado, mas, simultaneamente com os filmes dessa tendência, Labaki flagrou um outro movimento. O documentário militante, politizado, que deu o tom nos últimos anos, como reação à política antiterror dos EUA, sob George W. Bush, está passando por uma mudança no alvorecer da era Barack Obama.

Mas, para confirmar que ainda tem força, basta olhar para a premiação de 2009. Os júris nacional e internacional selecionaram filmes de acentuado recorte político, exceto o documentário curta brasileiro, o admirável No Tempo de Miltinho. Numa mensagem endereçada ao festival, Ostergaard disse esperar que o prêmio abra as portas da América Latina para uma obra que possui um significado tão amplo e relevante. VJs de Mianmar documenta a atividade dos videorrepórteres que desafiam a ditadura da antiga Birmânia, onde portar uma câmera pode levar a uma sentença de morte sem julgamento, como ocorreu com o jornalista japonês Kenji Nagai, em 2007. Ostergaard agradeceu aos VJs que confiaram nele, permitindo que usasse seu material.

Litewski, o autor de Cidadão Boilesen, contou como, nos últimos 15 anos, usou dinheiro do próprio bolso e todo tempo disponível para fazer seu documentário premiado. Mas ele descartou que Cidadão Boilesen seja resultado de uma obsessão. Litewski impressionava-se, quando garoto, com a forma como o gás era distribuído em sua cidade, por meio daqueles caminhões, numa operação que, aos seus olhos, parecia militar. Ele tinha 14 anos quando viu a entrevista do empresário dinamarquês Henning Albert Boilesen apoiando a repressão do regime militar. Quando Boilesen foi executado pela guerrilha, Litewski jurou, para si mesmo, que um dia ia tratar do assunto. Achava que escreveria um livro. Fez um documentário, um grande filme. Cidadão Boilesen ainda não tem distribuição. Litewski quer voltar ao filme para ajustar detalhes (dar um acabamento melhor às fotos, corrigir legendas). Ele trabalha na ONU, em Nova York. Sua expectativa é que surjam parceiros para a finalização e distribuição. Por seu exame do financiamento da repressão violenta à luta armada, Cidadão Boilesen dá um testemunho forte sobre um aspecto ainda pouco mapeado do período da ditadura.


Os premiados

DOCUMENTÁRIOS NACIONAIS

Melhor Filme: Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski

Menção Honrosa (longa-metragem): Corumbiara, de Vincent Carelli

Melhor Curta-metragem: No Tempo de Miltinho, de André Weller

Menção Honrosa (curta-metragem): Leituras Cariocas, de Consuelo Lins

INTERNACIONAIS

Melhor Filme: VJs de Mianmar - Notícias de um País Fechado, Anders Hogsbro Ostergaard

Menção Honrosa (longa-metragem): Segundas Sangrentas e Tortas de Morango, de Coco Schrijber, e René, de Helena Trestikova

Melhor Curta-metragem: Arrancando a Alma, de Bárbara Klutinis

Menção Honrosa (curta-metragem): Escravos, de Hanna Heilborn e David Aronowitsch, e La Chirola, de Diego Mondaca

RioFilme quer atrair cineastas para filmagens no Estado

AE - Agencia Estado

SÃO PAULO - Copacabana não engana: a RioFilme quer se dedicar prioritariamente a filmes rodados nos limites do Rio, seja de produtoras cariocas ou de fora. Esvaziada nos últimos anos, resultado da falta de recursos, a empresa da prefeitura pretende se reerguer no fomento da indústria, e não na distribuição. O orçamento, que chegou a R$ 320 mil em 2008, neste já subiu para R$ 1,1 milhão, e há plano de investimento de R$ 28 milhões para até o fim de 2010.



"A ideia é fazer com que a RioFilme volte a ser relevante, mas com perfil distinto, pois o mercado hoje é diferente", diz o diretor-presidente, o jornalista Sérgio Sá Leitão. "Quando ela surgiu em 1992, não havia distribuidoras, senão as majors (gigantes estrangeiras). Hoje, não é preciso que a RioFilme atue diretamente na distribuição. Queremos fazer isso com outras empresas."



Ex-diretor da Ancine, ele lembra que, ao assumir o cargo, no início do ano, constatou que, do jeito que estava, era melhor fechar. "Mas dá para fazer outra coisa...", pensou. Sua meta é tornar o Rio mais atraente para os cineastas. "A gente estava perdendo filmes para Paulínia. O Sérgio Rezende, carioca, foi filmar Salve Geral lá, porque a cidade entrou com R$ 500 mil."



Os próximos lançamentos: Praça Saens Pena, de Vinicius Reis, Diário de Sintra, de Paula Gaitán, e Tempos de Paz, de Daniel Filho, Elza, de Izabel Jaguaribe, Simonal, Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal, entre outros. Esses são casos em que a empresa age na distribuição, na produção ou em ambas. A grande expectativa é em relação à produção carioca Divã, que será distribuído em parceria com a Downtown e cuja estreia, dia 17, estava sendo adiada por falta de recursos, apesar de seu grande apelo popular. Os R$ 500 mil da RioFilme garantiram a chegada do filme de José Alvarenga Jr às salas. "Por circunstâncias históricas, a empresa se tornou nacional. Isso não faz sentido hoje", diz Leitão.



Os investimentos serão distribuídos da seguinte forma: a cada cinco filmes, dois têm de apresentar grande potencial de público - atores globais como Lilia Cabral e Reynaldo Gianecchini -, dois têm de combinar este potencial e prestígio e um será uma ?aposta?. O ano de 2009 deverá ser fechado com dez filmes lançados. Em 2008 foram sete. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.



Andrzej Wajda


Em comemoração aos 100 anos da indústria cinematográfica na Polônia, o CCBB São Paulo apresenta, com curadoria da Embaixada Polonesa, a mostra 100 Anos da Cinematografia Polonesa, que reúne 14 trabalhos de destaque que retratam o panorama de um século de história e cultura do país.

A mostra Ilustra sua riqueza, criatividade e aspectos específicos da criação em várias épocas. Os filmes foram desenvolvidos por cineastas reconhecidos mundialmente, como Wajda, Zanussi, Jakimowski, Bugajski e Kawalerowicz.

O projeto tem o apoio da Embaixada da República da Polônia no Brasil, Polish Film Institute, Associação Mañana e Babel Studio.

Sinopses: 100 Anos da Cinematografia Polonesa

O Homem obstinado, de Henryk Szaro
(Mocny cz³owiek, Polônia, 1929), P&B, Filme mudo, 78 min. Livre.

Henryk Bielecki é um homem obstinado, que vai atrás da glória e do dinheiro a qualquer preço. Falsifica um cheque para editar sob o próprio nome os manuscritos do amigo, que matou. Mas o amor vence até a sedução da glória e da riqueza obtida a custos da ruína dos outros. Henryk renasce moralmente, sentindo a miséria do próprio comportamento, quando conhece Nina. Para este filme restaurado no séc. XXI, a música foi composta por um dos mais conhecidos artistas poloneses – Maciej Maleñczuk.


Tchau, até amanhã, de Janusz Morgenstern
(Do widzenia, do jutra, Polônia, 1960), P&B, 80 min. 16 anos.

Em uma simples história romântica sobre o encontro de Jacek e Margueritte, os autores do filme entrelaçaram cenas com a participação de criadores e autores dos teatrinhos Bim-Bom e Co To (Que é?). Realizados dentro das autênticas caves estudantis de Gdansk, tentam desta maneira fixar inesquecíveis espetáculos da segunda metade dos anos 50. No papel principal está Zbigniew Cybulski – diretor, ator e um dos criadores da Companhia do Humor Bim-Bom, e o papel de Margueritte também é autêntico – na verdade era Françoise Bourbon – a filha do cônsul francês, que passava na Polônia as férias e feriados. Na esfera formal, os episódios da vida dos teatros estudantis quebravam o enredo principal da ação, proporcionando ao conjunto um estilo de livre narração, marcante na Nouvelle Vague francesa, que então dava os seus primeiros passos.


O Faraó, de Jerzy Kawalerowicz
(Faraon, Polônia, 1965), Cor, 175 min. 16 anos.

As tropas do jovem Ramsés foram paradas pelo sacerdote Herhor, que viu na areia dois besouros – as sacras imagens do Deus do Sol, Amon. Para desviar-se dos besouros, as tropas têm que passar por um canal, cavado por um escravo ao longo de anos. Ramsés em vão tenta mudar a idéia do sacerdote. No caminho, encontra a linda judia Sara. Encantado pela sua beleza, ele a leva para o palácio. Herhor relata ao faraó que Ramsés não era capaz de comandar o exército. O jovem príncipe de novo experimenta o poder dos sacerdotes. Afastado da política passa tempo em diversões e endividado, toma dinheiro emprestado dos fenícios. Quando Sara dá à luz um bebê seu, a rainha Nikotris e Herhor decidem que o bebê seria educado como judeu, para nunca pretender o trono. No entanto os sacerdotes preparam um tratato com a Assíria desfavorável para o Egito. Os preocupados comerciantes da Fenícia começam a suportar Ramsés, que declara guerra contra a Assíria. Indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.


Hotel Pacífico, de Janusz Majewski
(Zaklête rewiry, Polônia/Tchecoslováquia, 1975), Cor, 95 min. 16 anos.

Baseado no romance do início do séc. XIX de Tadeusz Kurtyk, conhecido como Henryk Worcell. Um grande restaurante dos anos 30 apresentado pelo lado “da cozinha”. O jovem Roman começa a trabalhar como um lavador de pratos. Para crescer na empresa precisa não só trabalhar duro, mas suportar a dor, humilhações e tomar decisões difíceis. Um dia ele vira barman à custa do amigo, outro dia é promovido a garçom, depois de receber pancadas do chefe. Farto de humilhações e denúncias questiona-se sobrea luta pelo emprego em detrimento da vida particular.


Mimetismo, de Krzysztof Zanussi
(Barwy ochronne, Polônia, 1976), Cor, 96 min. 16 anos.

Um dos mais importantes filmes do "cinema da inquietação moral" trata do problema do conformismo da classe mais culta da sociedade polonesa. Num acampamento universitário, o jovem Jaroslaw encarregado dos assuntos organizacionais, tenta tratar os estudantes com igualdade e parceria, e se esforça pelo bom andamento do Concurso de Trabalhos Científicos dos jovens linguistas, principal objetivo do acampamento. Ele ignora os avisos do promotor científico Jakub Szelestowski sobre a antipatia do vice-reitor em relação ao centro científico da cidade de Torun, mas estes avisos não evitaram Jaroslaw em aceitar para o concurso um trabalho atrasado vindo deste mesmo centro.


O Interrogatório, de Ryszard Bugajski
(Przes³uchanie, Polônia, 1982), Cor, 111 min. 18 anos.

Definido pelo governo de então como “o filme mais anticomunista da história da Polônia Socialista". Como resultado da pressão do governo, Ryszard Bugajski se viu obrigado a deixar a Polônia e a estréia do filme só aconteceu em 13 de dezembro de 1989, no oitavo aniversário da introdução do estado de guerra. Antonia Dziwisz – atriz de classe média vai com sua trupe realizar espetáculos para trabalhadores em pequenos vilarejos. Acaba sendo presa e torturada com o objetivo de acusar um colega do grupo. Mesmo agredida e maltratada psiquicamente, ela não desiste. Atinge o ápice da depressão somente quando o marido pede a separação devido a falsas acusações de infidelidade feitas pelas autoridades propositalmente. Sai da prisão depois da morte de Stalin e retira do orfanato a filha, que tem como pai um dos perseguidores de sua mãe.


A Dívida, de Krzysztof Krauze
(D³ug, Polônia, 1999), Cor, 97 min. 18 anos.

Baseado em fatos verídicos, o filme retrata a trágica história de dois jovens, Adam e Stefan, sócios nos planos de abrir um negócio promissor. Depois de fracassarem inúmeras tentativas de obter um financiamento, um encontro acidental coloca Gerard no seu caminho, ex-vizinho de Stefan, que se oferece para levantar tais fundos. Mas o simpático colega Gerard se transforma num frio cobrador que mudará para sempre a vida destes dois rapazes, bem como a sua própria.

Terra Prometida, de Andrzej Wajda
(Ziemia obiecana, Polônia, 1974 – nova versão 2000), Cor, 136 min. 16 anos.

Um jovem engenheiro polonês, Karol Borowiecki
trabalha numa fábrica sonhando com o próprio negócio, assim como seus amigos - Moryc Welt, jovem comerciante judeu, e Maks Baum, um alemão, filho do proprietário de uma velha tecelagem. Todos querem realizar seus sonhos aproveitando a notícia do aumento dos impostos sobre o algodão. Esta tarefa vai se tornando difícil com a resistência dos fabricantes de Lodz, que estão com medo da concorrência e com a reação do velho Zucker que ficou sabendo do romance de Karol com sua esposa. Esta nova versão do filme não é um remake do filme original: trata-se do mesmo filme, reeditado pelo próprio Wajda. Indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Sexmissão, de Juliusz Machulski
(Seksmisja, Polônia, 1983), Cor, 116 min. 16 anos.

Esta obra lançada em pleno regime comunista, é uma genial comédia encenada em um ambiente futurista, com breves cenas que fazem até mesmo lembrar da pornochanchada brasileira. Escondido sob uma sátira ao feminismo, o filme é sobretudo uma crítica aos regimes totalitários. Maks e Albert, voluntários em um experimento de hibernação, acordam em 2044 em um mundo subterrâneo, sendo os únicos homens sobreviventes, depois que o gene masculino foi exterminado acidentalmente em uma guerra nuclear. Agora, estas duas cobaias masculinas encontradas em uma escavação arqueológica, na sua busca pela liberdade, irão provocar muita confusão neste mundo só de mulheres.


O Meirinho, de Feliks Falk
(Komornik, Polônia, 2005), Cor, 93min. 16 anos.

Lucian Bohme, um jovem oficial de justiça, eficiente e inflexível, de maneira quase cruel executa os seus mandados em uma zona pobre e com grande número de desempregados, causando medo e ira. Lucian está ocupado demais com sua carreira para dar atenção aos sentimentos e dores alheias. Sua eficácia lhe traz lucros significativos, mas também a inveja. A insensibilidade de Lucian termina quando, por sua causa, uma jovem se suicida no saguão do Tribunal e uma antiga paixão cruza a sua vida. Abalado, resolve distribuir para as pessoas que feriu, o dinheiro recebido de um suborno. Ocasião igualmente aproveitada por seus competidores.


Praça do Salvador, de Joanna Kos-Krauze e Krzysztof Krauze
(Plac zbawiciela, Polônia, 2006), Cor, 105 min. Drama baseado em fatos reais. 18 anos.

Beata e Bartek, pais de dois filhos, se mudam para a casa da mãe de Bartek, Sra.Teresa. O casal dedicou todas as suas economias para a compra de um apartamento, mas a construtora faliu e o apartamento foi tomado pelo banco. Endividados e sem o sonhado apartamento, vivem do salário de Bartek e de sua mãe Teresa. Beata largou os estudos quando ficou grávida e agora não consegue encontrar um emprego. Teresa, que criou um filho mimado e irresponsável, não esconde a sua aversão pela nora e defende o seu filho em qualquer situação.

Jasminum, de Jan Jakub Kolski, com Janusz Gajos
(Jasminum, Polônia, 2006), Cor, 107 min. Livre.

Ambientado num mosteiro do séc. XVII, no limiar entre a realidade e o conto de fadas, três irmãos soltam cheiros: de azereiro, de ameixa e de cereja. O abade acredita que um deles é um santo previsto pela antiga profecia. Os cheiros soltados pelos sacerdotes têm o poder de acordar nas pessoas uma louca paixão. Um dia no mosteiro aparece Natasha - uma jovem restauradora de arte com uma filha de 5 anos, a Gienia. Natasha restaura as obras e compõe os cheiros. Ela consegue achar, na lenda do mosteiro, a chave para o cheiro afrodisíaco. Depois da saída de Natasha e Gienia acontece um milagre no mosteiro, mas diferente do esperado pelo abade.

Truques, de Andrzej Jakimowski
(Sztuczki, Polônia, 2007), Cor, 95 min. Filme baseado em motivos autobiográficos. Livre.

Stefek, um menino de 6 anos, e a irmã dele, Elka de 17 anos, acreditam que o destino pode ser conduzido pelos truques. O pai do Stefek abandonou a mãe por uma outra mulher. O menino desafia o destino. Acha que uma cadeia de acontecimentos provocados por ele vai aproximá-lo do pai. Elka ensina para ele como “subornar” o destino pelas pequenas oferendas. Mas no momento decisivo as crianças não têm nada valioso para oferecer.


Ladies, de Tomasz Konecki
(Lejdis, Polônia, 2008), Cor, 134 min. Livre.

Ambientada na cidade grande, esta comédia gira em torno da vida íntima de quatro mulheres e suas relações com os homens. Amigas desde a infância, mantêm desde então o costume de realizar o Reveillon em pleno verão (num país onde este acontece no inverno), quando dividem os sonhos para o ano novo. A vontade de ter um filho, ter seios maiores, casar ou ser uma eterna solteira são alguns dos sonhos que, somados a um enredo de traição, paquera, absurdo e sobretudo muito amor, desvendarão um pouco do mistério feminino. 3 prêmios.


Confira a programação
Francis Ford Coppola faz 70 anos prestes a estrear novo filme

Com cinco prêmios Oscar na carreira e diretor de 'O Poderoso Chefão' está prestes a lançar 'Tetro'

EFE


Coppola e sua filha Sophia

AP

Coppola e sua filha Sophia

WASHINGTON - O cineasta que presenteou o mundo com a trilogia de O Poderoso Chefão e Apocalypse Now, Francis Ford Coppola, completa nesta terça-feira, 7, 70 anos, com cinco prêmios Oscar em sua carreira e muita vontade de seguir fazendo cinema, como demonstra sua filme mais recente, Tetro, pronto para a estreia nos cinemas.

Com grandes sucessos e enormes fracassos, Coppola soube passar por cima de tudo isso e, entre filmes sob encomenda e projetos personalíssimos, construiu uma das corridas mais ecléticas e interessantes de Hollywood.

Nascido em Detroit, no dia 7 de abril de 1939, em uma família de origem italiana, é filho da Italia Pennino e do compositor e diretor de orquestra Carmine Coppola, que colaborou em algumas das trilhas sonoras de seus filmes.

Transferida a família para Nova York, Coppola passou sua infância no Queens e aos nove anos contraiu poliomielite (paralisia infantil), doença que lhe manteve um ano na cama, período no qual se distrairia criando peças com marionetes e filmes familiares em Super 8 (câmera da época).

Em 1960, Coppola se graduou na Universidade Hofstra e, em seguida, fez especialização de Belas Artes em direção cinematográfica na Escola de Cinema da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Embora já tivesse realizado diversos trabalhos como diretor, sua estreia em longas-metragens foi com Demência 13 (1969), da qual foi diretor e roteirista, função que desempenhou tanto para suas próprias produções quanto para as de outros.

Após alguns trabalhos nos quais não chamou especialmente a atenção, chegou O Poderoso Chefão, de 1972, uma joia do cinema, que marcou um antes e um depois nos filmes sobre a máfia e que é considerado o segundo melhor filme da história pelo Instituto de Cinema Americano, superado apenas por Cidadão Kane (1941), de Orson Welles.

Coppola não estava convencido de levar à grande tela o best-seller de Mario Puzzo, mas finalmente embarcou em um projeto que lhe lançou ele e Al Pacino ao estrelato e que se transformou em uma dos filmes de maior bilheteria de todos os tempos.

Ele já tinha ganhado um Oscar como roteirista de Patton: rebelde ou herói? (1970) e O Poderoso Chefão lhe proporcionou o segundo, também pelo roteiro -assim como o de Melhor Ator, para Marlon Brando e o de Fotografia -, além de todo o reconhecimento que pudesse desejar.

Isso lhe permitiu rodar A Conversação (1974), uma mudança radical de gênero, que foi seu primeiro grande fracasso comercial, mas que foi bem recebido pela crítica, ganhando a Palma de Ouro no Festival de Cannes e que, com a passagem dos anos, passou a ser considerado um de seus melhores filmes.

Também em 1974, filmou a segunda parte de O Poderoso Chefão, que apesar de arrecadar muito menos do que a primeira, conseguiu três prêmios Oscar (o primeiro de Coppola como diretor, assim como os de melhor filme e roteiro) e lhe permitiu iniciar em um projeto que iria acabar sendo um autêntico pesadelo.

A filmagem de Apocalypse Now, adaptação do complexo romance O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, foi um inferno no qual aconteceram todos os problemas, técnicos, econômicos, pessoais e climatológicos, imagináveis.

O orçamento disparou, o protagonista, Martin Sheen, sofreu um infarto, os cenários foram destruídos por uma tempestade tropical, a filmagem eternizou e os trabalhos de pós-produção não ficaram atrás, tanto que ele só foi lançado cinco anos depois O Poderoso Chefão - Parte 2, em 1979.

O resultado é um filme obscuro, complexa e difícil, com interpretações impressionantes, especialmente de Marlon Brando, fotografia e música espetaculares, que foi imediatamente considerado uma obra prima e ganhou outra Palma de Ouro em Cannes.

Após este complexo processo, porém, Coppola começou outro projeto que não seria menos complicado e que iria mudar sua trajetória profissional: O Fundo do Coração (1982), um musical que foi um gigantesco fracasso comercial.

Coppola perdeu seus estúdios, sua casa e seu patrimônio e teve que aceitar trabalhos sob encomenda para poder pagar as dívidas, como Cotton Clube (1984) e Peggy Sue - Seu Passado a Espera (1986).

Mesmo assim, também teve tempo para rodar filmes estupendos como O Selvagem da Motocicleta e Vidas Sem Rumo, lançados em 1983.

Ainda sem sair de sua crise econômica decidiu fazer a terceira parte de O Poderoso Chefão (1990), muito menor do que as duas primeiras quanto à qualidade e às ambições.

Drácula de Bram Stoker (1992), Jack (1996) e O Homem Que Fazia Chover (1997) foram alguns de seus seguintes trabalhos, nos quais seguiu mostrando talento, mas sem encantar como fizera anteriormente.

Agora, à espera do estreia de Tetro, ele dedica-se também à produção, como, por exemplo dos filmes de sua filha Sophia, que também despontou como diretora.

No entanto, Francis Ford Coppola, mantém claras suas prioridades. Amo o cinema; gosto de outras coisas, como o vinho e a comida, mas o cinema é mágico e eterno. Sempre aprendo coisas boas.

Paulínia anuncia incentivo de R$ 8 milhões para produções audiovisuais

EDUARDO TARDIN
De Paulínia *
A prefeitura municipal de Paulínia anunciou nesta sexta-feira (3) que destinará R$ 6 milhões para patrocinar dez projetos de longa metragem de ficção e R$ 2 milhões para projetos de documentários, telefilmes, novelas e mini-séries. O valor supera em 2,5 milhões de reais o total dos incentivos concedidos no ano passado, quando apenas longas de ficção e documentários concorriam às verbas de incentivo.
  • UOL/Aline Arruda

    O diretor Roberto Moreira ensaia Silvia Lourenço para antes de gravar cena para o inédito "Condomínio Jaqueline", rodado em meados de 2008 nos estúdios do Polo de Paulínia

Na coletiva de imprensa realizada na manhã desta sexta no polo cinematográfico da cidade, a 126 km de São Paulo, o secretário de Cultura Emerson Pereira Alves também anunciou os valores dos prêmios que serão distribuidos aos vencedores do Festival de Cinema de Paulínia, de 9 a 16 de julho. O valor total de R$ 650 mil é o mesmo da primeira edição do festival.

Este ano, porém, a categoria de melhor roteiro terá apenas um premiado, sem segundo ou terceiro lugares. Também foi anunciada a criação de um festival de Televisão em Paulínia, ainda sem data definida.


O prefeito de Paulínia, José Pavan Junior (DEM), não compareceu ao evento como o previsto, por causa de "compromissos de última hora", segundo o secretário de cultura. Na ausência dele, Rubens Ewald Filho, curador do Festival de Cinema de Paulínia, abriu a entrevista dizendo que "Paulínia sofreu uma mudança, mas não parou".

Na sequência, o secretário de Cultura ainda brincou com os presentes, dizendo que uma das perdas do projeto este ano foi o acento agudo de "polo", por causa reforma ortográfica. Depois, disse que se trata de um projeto da cidade, e não de um governo. Foi na gestão de Edson Moura (PMDB), prefeito da cidade de 2001 a 2008, que teve início o projeto de transformar a cidade em polo cinematografico - antes, era mais conhecida por seu polo petroquímico.

Contrapartidas para a cidade
Este ano, os projetos selecionados deverão prever pelo menos 25% do tempo de filmagens em Paulínia, além da obrigatoriedade de investir 40% do valor do incentivo na própria cidade. Além disso, o edital do concurso estabelece uma série de contrapartidas obrigatórias, dentre as quais o número de profissionais residentes na cidade que trabalharão nas filmagens e o número de locações e atividades realizadas no município. As contrapartidas estão entre os critérios de avaliação para os projetos, que serão selecionados por uma comissão presidida pelo secretário de Cultura.

No evento, foi anunciada ainda a criação de um festival apenas para projetos de televisão, que ainda não tem data definida, e que não coincidirá com o de cinema. Alves disse na coletiva que a cidade pretende receber não apenas produções de filmes de ficção, mas também projetos para TV e filmes publicitários. Ele citou a importância das retransmissoras do interior e o crescimento do número de projetos independentes para TV como fatores que os motivam a seguir por este caminho.

No ano passado, a cidade financiou parte de produções como "Condomínio Jaqueline", de Roberto Moreira, "O Contador de Histórias", de Luiz Villaça, "Salve Geral", de Sergio Rezende, "Cabeça a Prêmio", de Marco Ricca e "Jean Charles", de Henrique Goldman. Todos tem previsão de estreia ainda em 2009.

* (O repórter viajou a convite da Prefeitura de Paulínia)

domingo, abril 05, 2009

Novo Filme de Pedro Almodóvar

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O garoto enxaqueca

PEDRO ALMODÓVAR EXPLICA COMO UMA DOR DE CABEÇA INSISTENTINSPIROU SEU NOVO FILME, "OS ABRAÇOS PARTIDOS", RECLAMA DO PESO DA FAMA E FALA DO FUTURO DO CINEMA E DAS NOVAS TECNOLOGIAS

ÁNGEL S. HARGUINDEY
ELSA FERNÁNDEZ-SANTOS


Um cineasta paralisado por uma cegueira acidental, uma mulher perseguida pela fatalidade, o amor louco, a morte e o cinema, essa paixão misteriosa, capaz de redimir quase tudo.
Com "Los Abrazos Rotos" [Os Abraços Partidos], Pedro Almodóvar [1951] volta ao cinema noir, o gênero no qual, segundo ele, cabem o suspense, o drama e o humor.
"Os Abraços Partidos" é seu 17º longa-metragem e um dos mais complexos de toda sua obra. "Um drama seco", diz o diretor. "Aqui os personagens já choraram o que tinham que chorar, mas foi antes de o filme começar." Amor louco em três ou quatro faixas.
E, no eixo de tudo, Penélope Cruz em sua primeira estreia desde que conquistou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, em 22 de fevereiro [por "Vicky Cristina Barcelona"].
Ela é Lena, pela qual estão loucamente apaixonados seu marido, o magnata Ernesto Martel (José Luis Gómez), e o cineasta Mateo Blanco (Lluís Homar), também conhecido como Harry Cane.
Entre eles, um passado reduzido a um quebra-cabeça de pedaços partidos escondido em uma gaveta que apenas Judith (Blanca Portillo) conhece.
Na entrevista abaixo, fala de suas enxaquecas (uma dor obscura da qual nasceu este novo filme), do futuro do cinema, da Espanha das maracutaias e da paralisia da fama: "Soa estranho, mas hoje não posso mais ficar parado na rua".

PERGUNTA - "Os Abraços Partidos" nasceu de dores de cabeça terríveis, algo de que o sr. não gosta muito de falar.
PEDRO ALMODÓVAR -
O que não gosto é de me queixar. Minhas dores de cabeça vêm de longe, mas a coisa piorou durante as viagens que fizemos para divulgar "Volver", em 2006.
Eu tinha essas dores quase todos os dias e as combatia com um coquetel de analgésicos chamado Migral, que me traziam da Argentina. Fiquei sabendo depois que, se você abusa do coquetel -e eu abusava-, ele tem o efeito contrário: o problema se torna crônico.

PERGUNTA - Como essas dores se manifestam?
ALMODÓVAR -
Não tem nada a ver com uma cefaleia comum; é como comparar uma anchova com um tubarão. Quando está muito intensa, ou mesmo quando é de intensidade média, você não suporta a luz.
Assim, torna-se impossível assistir à televisão, usar o computador ou até mesmo ler. E, claro, escrever. Ela tampouco lhe permite falar. Sua sensibilidade fica totalmente dominada pela dor. Não existe mais nada.

PERGUNTA - O personagem do cineasta cego, interpretado por Lluís Homar, nasce dessa dor...
ALMODÓVAR -
A enxaqueca é uma doença misteriosa. São tantas as causas que a provocam, e dependem de tantas circunstâncias, que acertar é pouco menos que casual.
Pouco a pouco fui me acostumando à ideia de que meus problemas não teriam uma solução imediata. No silêncio e na escuridão, sem me dar conta, comecei a imaginar situações e personagens.
Assim surgiu Mateo Blanco, nesse momento claramente meu alter ego -um diretor de cinema que vive na escuridão. Cego. Comecei a fazer anotações a lápis no apartamento. É interessante descobrir que a dor não anula a imaginação.
No final de 2007, senti uma ligeira melhora e, sem me dar conta, havia terminado o roteiro de "Os Abraços Partidos".

PERGUNTA - A fotofobia decorrente das enxaquecas não foi um problema na hora de filmar?
ALMODÓVAR -
Suportei a fotofobia diante dos mil quilowatts com que o diretor de fotografia, Rodrigo Prieto, decidiu nos incendiar. Eu me protegia com chapéu e óculos escuros, fazendo todo o possível para que a luz não me atingisse.
Minha vida sempre foi cheia de paradoxos, desde a mais tenra infância. Não me parecia estranho sofrer de fotofobia e trabalhar com a luz. Porque o cinema é luz.
Já o dizia Joseph von Sternberg a Marlene Dietrich, antes de ela entregar-se a uma dieta devastadora para oferecer o rosto mais anguloso possível a seu criador.
Sternberg a convenceu de que não precisava se sacrificar -que os ângulos que a tornariam imortal, ele os criaria com a luz. E conseguiu!

PERGUNTA - Um dos personagens principais é um milionário, um magnata que vira produtor de cinema para realizar o capricho de sua mulher de ser atriz. É um protótipo da "cultura da maracutaia".
ALMODÓVAR -
Há tantos magnatas que já pagaram filmes para suas queridas! Minha experiência com homens poderosos, esses ricos que se metem a fazer cinema, tem sido nefasta.
Não deixa de me parecer comovente que, de "Cidadão Kane" até hoje, continuem a existir esses homens, diletantes, amantes da arte, mas basicamente toscos, capazes de financiar o capricho de uma mulher de ser atriz, se com isso conseguem conservá-la a seu lado.
São homens que se condenam a um duplo fracasso: primeiro, porque a pessoa que amam não tem talento; segundo, porque essa pessoa vai deixá-los da mesma maneira.
Em "Abraços Partidos", a personagem de Penélope não se sente realizada vivendo num palácio, amarrada por correntes de ouro.
Nesse caso, além de ser atriz, é boa e tem escrúpulos.
De qualquer modo, embora os personagens possam ser inspirados em pessoas que já conheci, não se trata de cinema terapêutico nem de revanche ou ajuste de contas com ninguém. Nem sequer é um filme tão anticlerical quanto "Má Educação" foi antirreligioso.


A tecnologia está deseducando o gosto dos jovens e degradando o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música

PERGUNTA - Essa Espanha das maracutaias, na qual transcorre parte da trama do filme, parece que virou atual outra vez.
ALMODÓVAR -
Ela nunca deixou de existir. É incrível como se repetem esses tipos, e o que mais me surpreende é que não tenham sido feitos mais filmes sobre eles. Em outros países, como a Itália, já haveria vários.
Ainda que o que me interessa seja a magnitude dos sentimentos desse homens.

PERGUNTA - Sentimentos esses que giram em torno da personagem de Penélope Cruz, num papel que provavelmente é o mais maduro de sua carreira.
ALMODÓVAR -
É um papel que teoricamente não combina com ela e que, por isso, lhe custou muito fazer.
Mas ao mesmo tempo é uma oportunidade para mostrar mais versatilidade, e eu não poderia ter ficado mais contente. Eu queria, de algum modo, forçá-la a trabalhar num registro novo, nesse de heroína de filme noir, que tanto me agrada.
Penélope é jovem para entender plenamente esse tipo de mulher -uma mulher de 38 anos muito experiente, que já viu de tudo na vida e que, por sua beleza, já caiu em muitas armadilhas. Uma mulher que sempre quis ser atriz, mas que não teve sorte.
Ela trabalha como secretária e, de vez em quando, como prostituta, mas não quer subir na vida, não é uma arrivista. É um anjo caído, uma mulher endurecida pela vida.
Penélope já sofreu, é claro, mas nunca teve contato com algo tão difícil quanto a personagem. Mas eu estava certo de que ela poderia fazer o papel, e ela confia plenamente em mim.
Neste momento, depois de mostrar a ótima comediante que pode ser no filme de Woody Allen ["Vicky Cristina Barcelona"], essa personagem lhe caiu muito bem.

PERGUNTA - É uma personagem muito triste.
ALMODÓVAR -
Sim, eu sentia muita pena dela, porque não podia fazer nada para salvá-la.

PERGUNTA - O ano de 2008 foi muito ruim para o cinema espanhol. Em 2009 estão previstas cifras melhores, graças à estreia de seu filme e os de Alejandro Amenábar, Isabel Coixet, Fernando Trueba etc.
ALMODÓVAR -
A crise está afetando o cinema positivamente. As pessoas deixam de ir jantar fora, mas querem continuar saindo às ruas, e o cinema é um entretenimento acessível, bom para estes tempos.
Sobre a redução no número de espectadores, acho que a pirataria tem muito a ver com isso. Vivemos uma fase de mudanças muito grandes em tudo o que diz respeito ao consumo de imagens, e só existe uma saída: estruturar esse consumo.
Não acredito que o cinema visto nas salas de cinema esteja morto, assim como não acredito que os jornais estejam mortos. Não vou a um café para ler o jornal no meu computador, e, como eu, há muitas pessoas.
Existem muitas coisas paradoxais, como o fato de que vejo os filmes muito melhor em meu televisor de plasma do que numa sala de cinema.
Isso me dá calafrios, porque aquilo de que gosto é justamente ir ao cinema, me sentar com pessoas que não conheço.
As novas tecnologias proporcionam uma qualidade extrema para assistir a filmes em casa, mas, ao mesmo tempo, essas mesmas tecnologias e a quantidade de janelas possíveis estão deseducando o gosto dos jovens e degradaram o produto cinematográfico, do mesmo modo que os iPods degradaram a música.

PERGUNTA - Este filme é uma história de amor louco, mas o sr. inclui uma sequência de "Viagem à Itália", de Rossellini, em que Ingrid Bergman não poderia estar mais longe desse tipo de amor -uma mulher que, ao contemplar um casal que morreu carbonizado e abraçado, pensa na decadência e na mesquinhez de seu próprio casamento.
ALMODÓVAR -
Há duas emoções nessa cena que me interessam. Uma delas é a de Ingrid Bergman, ao ver que seu casamento não se parece em nada com esse casal carbonizado pela lava de um vulcão; essa emoção coincide com a de Magdalena/ Penélope, ao ver um casal a quem a morte surpreendeu dormindo juntos e abraçados.
E há também a de Lluís Homar, que quer congelar numa foto esse abraço seu com Penélope e cuja voz também nos recorda seu desejo não realizado de morrer abraçado com ela.
Diante de tudo isso, o que fica subjacente nesse filme é o azar, uma má sorte que contagia todos os personagens, embora recaia especialmente sobre ela.
Apesar de tudo, acho que é um dos filmes que fiz com final mais feliz.

PERGUNTA - E aí entra o cinema, com sua capacidade redentora. O cinema ordena tudo e também cura todo. Talvez o grande amor retratado neste filme seja o cinema.
ALMODÓVAR -
O cinema é uma paixão irracional; todos os meus filmes são impregnados de cinema e, para mim, o cinema é a realidade. O filme todo é um canto de amor a essa profissão, que é mais que um trabalho: é uma forma de vida.
Mas isso não estava presente quando escrevi o roteiro -foi surgindo pouco a pouco. As intenções nem sempre estão presentes desde o início -elas vão saindo...
E sim, sinto que é a primeira vez em que faço uma declaração tão expressa de amor pelo cinema -não com uma sequência em concreto, mas com um filme inteiro.
John Huston filmou "Os Vivos e os Mortos" numa cadeira de rodas, ligado a um cateter. Essa não é uma imagem patética, mas harmônica, de grande beleza. Eu me vejo exatamente assim na idade dele.

PERGUNTA - "Os Abraços Partidos" é um drama com toque de filme noir. É um gênero que o sr. já abordou em "Carne Trêmula" e depois em "Má Educação". Por que o fascínio por esse gênero?
ALMODÓVAR -
Na minha maturidade, venho me interessando pelos gêneros, e um tem me levado a outro.
Por exemplo, nunca assisti a um faroeste quando era criança, mas mesmo assim fui me interessando mais e mais por eles, até que o western se converteu em meu gênero favorito. Não faço um porque a ideia não me vem à cabeça.

PERGUNTA - O sr. teve uma ideia -sobre dois caubóis homossexuais-, mas foi atropelado.
ALMODÓVAR -
(ri) Bem, bem, isso já é outra história. O fato é que sempre gostei de drama e de melodrama, desde muito jovem. E cheguei ao cinema noir exatamente daí. O cinema noir é drama com um pouco mais de obscuridade, com alguma arma e algum morto.
Quando o drama e o noir se esbarram, convivem perfeitamente, e o drama se converte em algo muito duro. O gênero noir se permite ter sentimentos. Sempre cito "Amar Foi Minha Ruína", de John M. Stahl, como a união perfeita de melodrama e thriller, e a convivência desses dois gêneros é tremendamente atraente, como diretor e como espectador.

PERGUNTA - Mas seria preciso acrescentar um terceiro gênero: a comédia.
ALMODÓVAR -
É que o thriller admite muita ironia; o que ele não admite tanto é a carga sentimental. Mas "Laura" [de Otto Preminger] é uma grande história de amor, como também o é "Fuga do Passado" [de Jacques Tourneur]. Esse thriller me encanta, pois não apenas evita os sentimentos como os torna mais evidentes.
Vendo os grandes filmes noir de John Huston ou Howard Hawks, os diálogos são pura ironia, os deles e os delas. Para mim, "O Falcão Maltês" é alta comédia. Com essa mulher, Mary Astor, que mente cada vez que abre a boca!
Portanto, é claro que o thriller admite o humor.

PERGUNTA - José Luis Gómez interpreta o magnata apaixonado por Lena (Penélope Cruz) e que é o pai de Ray X (Rubén Ochandiano). O filme fala muito de paternidades conflitivas. O personagem interpretado por Homar chega a contar o episódio do escritor Arthur Miller e seu filho secreto, Daniel.
ALMODÓVAR -
A história do filho de Arthur Miller, assim como a do filho de Hemingway, me serve para falar desses pais poderosos e importantes que sufocam seus filhos.
Na criação do personagem de Ray X, há ecos da história de Ernest Hemingway e seu filho Gregory.
Quando era criança, Gregory gostava do contato com seda e tafetá. Depois de beber mais que seu pai, caçar elefantes maiores que os dele e ter mais filhos do que o escritor teve, acabou mudando de sexo quando tinha quase 60 anos, 15 anos após a morte de seu pai.
A história do filho de Arthur Miller também me parece terrível -esse garoto com síndrome de Down cujo pai nunca quis vê-lo e que anos depois o procurou, depois de uma conferência, para se apresentar. É assombroso.

PERGUNTA - No filme há uma homenagem explícita a quase todas as "garotas Almodóvar": Chus Lampreave, Kiti Manver, Mariola Fuentes, Lola Dueñas, Blanca Portillo e, é claro, Penélope Cruz. O sr. diz que a maior parte dos papéis femininos que escreveu é uma mistura de sua mãe e de suas vizinhas de La Mancha, com pitadas de Holly Golightly [personagem de Audrey Hepburn em "Bonequinha de Luxo"], da Giulietta Masina de "A Estrada da Vida" e da Shirley MacLaine de "Se Meu Apartamento Falasse".
ALMODÓVAR -
Falta uma, Blanca Sánchez, que morreu recentemente e da qual, por pudor, tenho falado pouco.
Na realidade, minha grande fonte de inspiração tem sido minha mãe, suas vizinhas e Blanca. Ela representava todas essas mulheres modernas e urbanóides, de pensamento voltado para o futuro, sem preconceitos e dotadas de tremenda vitalidade.
Em termos de cinema, eu acrescentaria a Gena Rowlands de "Opening Night" e Romy Schneider, à qual faço uma pequena homenagem no filme. Mas Blanca era mais do tipo Holly Golightly, sem ser prostituta, é claro.

PERGUNTA - Como ela era?
ALMODÓVAR -
Era muito sofisticada e moderna e, ao mesmo tempo, tremendamente ingênua para o amor. Representa essas mulheres que se desenvolvem por igual em todos os ambientes, dos mais humildes aos mais sofisticados.

PERGUNTA - Ela inspirou Candela (María Barranco) de "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos"?
ALMODÓVAR -
Sim. Ela se apaixonou por um homem sem saber que era terrorista e que a estava usando. Ele colocou outras pessoas do ETA em sua casa, porque Blanca era muito generosa, e ali, sem que ela soubesse, planejaram um ataque ao presídio de Carabanchel para libertar outros presos.
Aquilo custou a Blanca, que era inocente, nove meses de prisão. Depois que saiu, nunca mais foi a mesma. Eu ia visitá-la e voltava arrasado. O que era incrível era sua ingenuidade para com o amor.
Quando a história dos membros do ETA veio à tona, o que ela não conseguia entender e o que a deixou arrasada era o fato de que aquele homem não tivesse confiado nela.
O que a fazia sofrer era o fato de que seu amante nunca confiou nela o suficiente para lhe dizer a verdade, na cama. Eu não acreditava naquilo e lhe dizia: "Mas, Blanca, ele era do ETA!".
Aquilo mudou radicalmente a relação dela com os homens, e a prisão a deixou marcada.
Lembro que, antes de se entregar ao juiz, me telefonou e pediu para tirar da casa, da minha casa antiga -porque vivi bastante tempo com ela-, as caixas e caixas de torrones e chocolates que o pessoal do ETA tinha comprado para levar no Natal.
Só me dizia para não me preocupar com ela, mas para, por favor, tirar tudo aquilo de sua casa.
O absurdo, os paradoxos que me acontecem na vida, é que eu não sabia o que fazer com aquele arsenal de doces natalinos, então os dei a meu cunhado, que era guarda civil e que passou o Natal devorando os torrones e chocolates que os homens do ETA tinham comprado.

PERGUNTA - Por que era uma amizade tão forte?
ALMODÓVAR -
Ela era mais consciente de mim do que eu mesmo. Tinha uma fé cega em mim. Conheci Blanca 100% e por isso tantas vezes minha referência tem sido ela. Sua generosidade sem limites, sua inteligência, sua capacidade de correr riscos na vida, sua enorme discrição -nunca fez alarde de nossa amizade.

PERGUNTA - O sr. já se queixou algumas vezes de como a fama modificou sua relação com o mundo.
ALMODÓVAR -
A fama me afeta, na medida em que não posso ficar tranquilo na rua. Se tenho um encontro marcado com alguém, não posso ficar esperando em nenhum lugar.
Não me importo de falar com as pessoas que se aproximam de mim na rua, mas não posso com as fotos feitas por celular -essa é a pior invenção que existe. Já renunciei faz tempo a me manifestar tal como sou nas ruas ou num bar. Se você tem um problema, não pode chorar... Essa é sem dúvida uma perda enorme.
O único hábito que não mudei é o de ir ao cinema duas ou três vezes por semana. Mas apenas vou a bares, sobretudo por causa das enxaquecas -não que me falte vontade de sair, pois isso não me falta.

Novo curta do diretor está no YouTube

DA REDAÇÃO

Após 30 anos sem se dedicar ao curta-metragem, Almodóvar retorna ao formato (com o qual iniciou a carreira nos anos 1970) com "La Concejala Antropófaga" (A Conselheira Antropófaga).
Protagonizado pela atriz espanhola Carmen Machi, o curta ecoa referências a filmes como "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos" (1988). Rodado durante a produção de "Os Abraços Partidos", "A Conselheira Antropófaga" pode ser visto em - http://www.youtube.com/watch?v=g9OrlcznzVM


A íntegra deste texto saiu no jornal "El País".
Tradução de Clara Allain.

Clint Eastwood

http://www.saladacultural.com.br/imagens/upConteudo/SaladaCultural.com.br-gran-torino-cartaz.jpg

O mesmo e o outro

Os filmes de Clint Eastwood opõem o discernimento pessoal às autoridades constituídas corruptas, indignas ou ausentes, como a polícia em "Gran Torino"

JORGE COLI
COLUNISTA DA FOLHA

O vulto lacônico, esguio e alto, desloca-se com lentidão calculada. O olhar, inquisidor ou fulminante, seguro de si, exprime desprezo ou ironia. Era assim Clint Eastwood em 1964, lançado à celebridade internacional por Sergio Leone no filme "Por um Punhado de Dólares".
Mais de 40 anos depois, os mesmos traços caracterizam Walt Kovalski, o herói de "Gran Torino", filme que Eastwood interpreta e dirige aos 78 anos.
Assistimos, porém, a uma fossilização. Os passos vagarosos, agora difíceis, tendem ao imobilismo. A voz é rouca; as palavras são substituídas por grunhidos ásperos, guturais: o laconismo de antes regride para uma animalidade primitiva.
Os cabelos raros, a pele fina acentuam as formas do rosto em planos secos, riscados pelas rugas.
Esse outro, o velho em sua metamorfose final, contém o mesmo jovem de antes.
Mas é preciso distinguir. Joe, Monco, Blondie, nos western spaghetti de Sergio Leone; o inspetor Callahan, em "Dirty Harry" ("Perseguidor Implacável"), de Don Siegel, vividos por Eastwood, parecem-se muito com os protagonistas inventados pelo próprio Eastwood nos filmes que dirigiu.
No entanto, semelhança não significa identidade.
Os heróis que Eastwood criou e, na maioria das vezes, também interpretou, pertencem à sequência de uma fabulosa saga.
Nela, como que regidos pela metempsicose, cada filme é uma vida, cada herói, uma reencarnação. O múltiplo concentra-se num único, que ressurge entrelaçando uma rede mais e mais complexa de interrogações sobre a ética, a justiça, as afinidades entre os seres.
Carrega um humanismo desiludido e, no entanto, prenhe de esperança.

Balas
"Não há nada errado em atirar, contanto que seja na pessoa certa." A frase é de Dirty Harry em "Magnum 44".
Não se pode identificar aquele violento policial com quaisquer dos heróis criados por Eastwood. Muito menos o Walt Kovalski, de "Gran Torino", apontado várias vezes como uma ressurreição envelhecida do inspetor Callahan.
Morte e violência são levadas a sério por Eastwood. Atos de exceção, elas irrompem no destino de cada um, alterando seu caminho. Kovalski busca e encontra sentido para a morte.
Quando a câmera o mostra de braços abertos, aflora a alusão cristã. Não ao Cristo Deus, mas a um Cristo humano e, sobretudo, ético.

Utopias
O carro de Kovalski, o soberbo Gran Torino de 1972, permanece tão brilhante quanto os ideais daqueles tempos, que Eastwood nunca abandonou.
Seus filmes opõem sempre discernimento pessoal às autoridades constituídas corruptas, indignas, ou ausentes, como a polícia em "Gran Torino".
Afirmam afinidades eletivas, superiores aos laços familiares e afetos obrigatórios. Comunidades heteróclitas se formam, em que desclassificados, "outsiders", gente de todo tipo, mal inserida na sociedade, une-se com lealdade e compreensão.

Amor
"Gran Torino" mostra um bairro suburbano de Detroit, cidade em decadência. É povoado por hmongs, comunidade vinda do Vietnã. Foram aliados dos EUA e obrigados a deixar a pátria depois da guerra. Seus costumes são estranhos.
Kowalski, único americano que sobrou na rua, veterano da Guerra da Coreia, é solitário e deslocado no mundo de hoje.
Pouco importam as incompreensões, em fim de contas superficiais: a aliança se faz entre a família asiática e o velho mal-humorado. Formam uma família forte e verdadeira. Diante dela, a do sangue é apenas uma caricatura.

Saídas Criativas para a Crise

Na lata

Daryan Dornelles/Folha Imagem

Da esq. para a dir., Jorge Saldanha, técnico de som, o diretor Mauro Lima, a produtora Paula Lavigne, Selton Mello e o diretor de fotografia Dudu Miranda

Em meio à crise, com pouco dinheiro e muitas estrelas, o diretor Mauro Lima roda "Reis e Ratos" reaproveitando cenários do filme "O Bem Amado" e deixando o pagamento de cachês para depois

Com uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e um aperto danado para conseguir financiamento em tempos de crise, o diretor Mauro Lima ("Meu Nome Não É Johnny") e a produtora Paula Lavigne ("Lisbela e o Prisioneiro", "Ó Paí, Ó") reuniram, em tempo recorde, um elenco de primeira num cenário deslumbrante para rodar um longa em duas semanas. Detalhe: sem gastar quase nada -e sem pagar um tostão para atores como Rodrigo Santoro, Selton Mello, Cauã Reymond e Otávio Müller. Deu a louca no show? Nada disso: é a crise mesmo que está obrigando o cinema a, pelo menos neste caso, improvisar.

Tudo começou em março, quando as filmagens de outro longa, "O Bem Amado", dirigido por Guel Arraes, chegaram ao fim. O cenário, os figurinos, quase tudo ia para a lata do lixo, ou então para um galpão onde ficaria mofando por tempo indeterminado. Paula, que produzia o filme, e Mauro, que era associado, tiveram um "insight", nas palavras dele: por que não reaproveitar tudo para um novo longa? Sim, porque há vários roteiros à espera de dinheiro para saírem da gaveta.

"O que dá trabalho e custa caro num filme? É juntar uma boa equipe, elenco, figurino, montar o cenário. Tudo isso leva oito meses e custa uns R$ 2 milhões. E a gente tinha tudo ali, na nossa frente", diz Paula.
Guel Arraes concordou em ceder cenário e figurinos e, com isso, virar produtor do trabalho. A O2, do diretor Fernando Meirelles, também se associou ao projeto, disponibilizando um roteiro do próprio Mauro no qual já trabalhava. O dono do imóvel onde funcionava o estúdio, no Alto da Boa Vista, liberou mais duas semanas sem cobrar aluguel. A equipe técnica de "O Bem Amado" topou esticar no batente. E assim surgiu "Reis e Ratos", cujas filmagens, que duraram apenas 17 dias (contra 44 de "O Bem Amado"), terminaram ontem.

Tomada a decisão, era preciso formar o elenco. "Eu pensava: "Pô, como vou fazer isso em duas semanas?" É complicadíssimo. Neguinho tá sempre em novela, em filme. Liguei para o Selton [Mello]." O ator, diz Mauro, estava "num autoexílio no Alto da Gávea", desanimado com tudo e todos. Mas disse: "Pra isso, eu me animo".
"Uns dois dias depois, o [escritor] Marcelo Rubens Paiva me ligou e disse: "Mauro, tô aqui no Porcão [churrascaria do Rio] com a galera". Eu fui pra lá. E o Rodrigo Santoro tava no meio. Falei o que tava fazendo. Ele disse: "Manda o roteiro"." Selton, já incorporado ao filme como ator e produtor associado, entrou no circuito: "Dei o telefonema fatal para o Rodrigo: "Vamos nessa, é legal"." Dias depois, Selton encontrou Cauã Reymond num avião. Convite feito, convite aceito. "Quando o Mauro me falou em botar uma roupa e filmar em duas semanas, ele me pegou. Gostei dessa coisa de guerrilha, de fazer não pelo dinheiro, mas de vestir a camisa e fazer acontecer. Falei: tô dentro", afirma Selton.
"E foi virando essa coisa de vários atores conhecidos fazendo um filme, tipo "Ocean's Eleven" [de 1960] com o Frank Sinatra, o Dean Martin", diz Selton. "A gente não tem irmãos Cohen no Brasil, a gente não tem filme pra fazer um monte de loucura. Estamos aqui pela diversão. Tem a ver com celebrar a vida. Fazer um filme e ser feliz." Os atores concordaram em trabalhar de graça e em só receber cachê "quando o filme for para as telas", diz Mauro Lima. Para rodar as cenas e "colocar o filme na lata", o diretor levantou R$ 500 mil com "um amigo que não quer aparecer".
Paula diz que depois vai "correr atrás de dinheiro", cerca de R$ 1,5 milhão, para mixar, editar, finalizar e lançar o filme.
"Estamos acostumados a fazer filmes milionários no Brasil se comparados, por exemplo, com os argentinos. Muita gente vai ter que aprender agora a fazer filme barato", diz Tomás Portela, assistente de direção que já trabalhou em filmes como "Ensaio Sobre a Cegueira", de Fernando Meirelles, e "Meu Nome Não É Johnny", do próprio Mauro Lima.

A história de "Reis e Ratos" se passa em 1963 -mesma época de "O Bem Amado". Foi só transformar o filme em preto e branco para os cenários ficarem irreconhecíveis no novo longa. Selton Mello é Troy, funcionário do quinto escalão da CIA baseado no Brasil -e apaixonado pelas mulheres, pela praia e pelos nossos pastéis de camarão. Às vésperas do golpe militar, ele se desespera com a possibilidade de ir embora e fica inventando maneiras de depor o governo sem que o dispositivo militar americano seja acionado. Para isso, tenta envolver o presidente em escândalos sexuais. Rodrigo Santoro é Ronny Ratto, "um proxeneta da Lapa" a quem Selton/ Troy recorre para arrumar uma mulher para o escândalo. E Troy sofre de ejaculação precoce, para desespero da namorada, Leonor (Paula Burlamaqui).

Helio Ribeiro, dublador do Robert De Niro, e Elcio Roman, dublador de Woody Allen e de Michael Douglas, amigos de Selton Mello, também fazem parte do elenco. A ideia é fazer com que o filme pareça um longa americano dublado. "É uma mistura de "Sessão da Tarde" com irmãos Cohen e filmes de máfia em preto e branco dos anos 50. É um policial noir com humor", diz o ator. "O filme pode ser charmoso, cult e tentar o Festival de Sundance. Mas também pode virar um sucesso, por que não? É um filme estrelado. Que diretor não sonharia em ter eu, o Rodrigo Santoro, o Cauã e mais o Otávio Müller no elenco?", diz Selton Mello, sem falsa modéstia.