segunda-feira, junho 05, 2006


Olhos nos olhos dos andróides

NELSON ASCHER - Folha de S. Paulo


Os efeitos de "Blade Runner", como sua estética, se tornaram símbolo dos anos 80 .


POUCAS SEMANAS após sua estréia, "Blade Runner - O Caçador de Andróides" (1982) já era o filme mais comentado pelos cinéfilos nacionais daquela época e, alcançado rapidamente o estatuto de "cult movie", continua, até hoje, a ser uma das produções mais discutidas da história do cinema.
"Blade Runner" se popularizou de início (pelo menos em São Paulo) devido antes a espectadores que, após entrarem no cinema sem saber o que os aguardava e esperando uma obra convencional de ficção científica, saíam de lá boquiabertos e o recomendavam, de imediato, aos amigos. Isto, mais que a publicidade ou a crítica em jornais e revistas, é que, fazendo dele o assunto das conversas, garantiu seu sucesso.

Requer hoje em dia certo esforço de memória, recordar que, na virada dos anos 70/80, o cinema americano, desdenhosamente considerado "comercial" então, relegado pelos entendidos de plantão a uma categoria inferior à do "cinema de arte" ou das obras cujos diretores eram famosos e venerados (Buñuel, Fellini, Bergman, Kurosawa), passou por uma transformação revolucionária graças a diversos saltos tecnológicos, à incorporação de novos temas diferentemente abordados e, sobretudo, pela entrada no mercado de outra geração de diretores, roteiristas e atores.

A reunião desses elementos, subitamente materializada numa obra como "Blade Runner", pegou de surpresa inclusive o público bem informado. Fosse apenas isto, porém, não teria se patenteado sua durabilidade ou longevidade. Ocorre que essa foi também a época em que se difundiu o uso do videocassete e ainda era possível alugar cópias importadas do filme, que não apenas sobrevivia a suas diversas repetições caseiras, mas convidava igualmente a ser acompanhado atentamente, com o controle remoto em mão.

Daí que logo se tenha percebido que a criação de Ridley Scott dialogava com um filme anterior, que não havia causado menos sensação: "2001 Uma Odisséia no Espaço". À utopia clara, branca e higiênica de Stanley Kubrick, o diretor mais jovem respondia com uma distopia poluída, chuvosa e escura.

O centro de ambas as tramas era, no entanto, ocupado pelo mesmo tipo de personagem: uma inteligência artificial que, destinada a auxiliar seus criadores humanos, revolta-se contra eles. Embora o gigantesco "cérebro eletrônico" do primeiro retorne, no filme seguinte, sob a forma de organismos vivos, ainda assim é a mesma pergunta que se coloca, a saber: quando é que a mera inteligência, convertendo quantidade em qualidade, se humaniza e adquire vontade própria?
O tema, é claro, remonta ao "Frankenstein" (nome, aliás, do criador, não da criatura) escrito no princípio do século 19 por Mary Shelley, livro que, por seu turno, não deixa de ser a versão moderna, científico-industrial, seja do mito grego de Prometeu, seja da própria história bíblica do homem que, cometendo o pecado original da desobediência, acaba expulso por Deus do Paraíso. Cada andróide do filme é um Adão e um Prometeu, melhor em quase tudo que seu inventor e os demais humanos de verdade, mas revoltados por terem sido condenados a uma vida tão curta que faz a humana se assemelhar à imortalidade.
Os efeitos especiais de "Blade Runner", assim como toda sua estética visual, bastante criticada na época por parecer "publicitária", não foram menos inovadores e se tornaram, por assim dizer, simbólicos dos anos 80. Acrescente-se que o futuro próximo sugerido ali tem mais a ver com nossa atualidade do que aquele preconizado por Kubrick e a obra ganha, retrospectivamente, uma aura quase profética.

E, tal qual tantos filmes rebuscados, este é, a seu modo, uma discussão acerca da arte cinematográfica, um exemplo de meta-cinema ou de cinema sobre cinema que se realiza, no entanto, de forma substancialmente mais sutil do que os produtos europeus com os quais competia.

Pois, entre tantas outras coisas, a obra de Ridley Scott "fala" incessantemente sobre o olhar. E, enquanto nós a assistimos, olhos e mais olhos aparecem e se multiplicam na tela, olhando-nos. Os olhos do filme estão em toda parte: os andróides são reconhecíveis por meio de um exame de retina; eles matam suas vítimas furando ou espremendo seus olhos; o principal andróide, conforme agoniza, com suas lágrimas misturando-se à chuva, relata aquilo que viu.

Seu recente lançamento em DVD é a oportunidade para vê-lo e/ou revê-lo de modo a continuar uma discussão que não vai se encerrar tão cedo.

Um comentário:

Murilo costa disse...

Isso me lembra a idéia abandonada do noso cineclube. Deveríamos retomar essa iniciativa, para aumentarmos nossos conhecimentos, com disucssões que muito acrescenteariam a visao pessoal que cada um tem dos filmes exibidos.